Nicanor de Freitas Filho
Logo que me formei em Economia, em 1969, troquei de
emprego, pois “Santo de Casa não faz milagre”. Como já estava há cinco anos na
Encyclopaedia Britannica, tive que sair, para melhorar o salário. Fui trabalhar
com um colega de formatura, cuja família era proprietária de uma empresa de
Financiamentos, onde também trabalhei por bom tempo, mais de sete anos. O Grupo
Financeiro foi crescendo, foi incorporando outras empresas e, pela confiança e
lealdade, tornei-me Assessor da Diretoria e tinha toda a confiança dos
proprietários. Numa determinada época,
em que foi fundado, inclusive um jornal, comprado um banco, foram contratados
muitos assessores para área de Direito, de Segurança, de Finanças Públicas,
Contabilidade, Vendas e foram várias pessoas muito gabaritadas nas suas áreas,
como professores, funcionários licenciados do Ministério Público, do Banco
Central, da área de Segurança Pública etc..
Dentre esses assessores especiais, um que já faleceu, que
tinha vindo da Procuradoria Estadual, Dr. Ítalo, que também era professor na
USP, lecionava Finanças no curso de Educação Física, lá na Cidade
Universitária. Ele era muito inteligente e na área de Segurança ele ajudava muito,
inclusive tendo levado várias pessoas para nos ajudar na segurança. Quando
precisava de mexer com números, sempre me procurava e dizia que eu era muito
claro para explicar o que calculava e ficava fácil para ele decidir o que
redigir sobre aquilo. Eu me dava muito bem com ele e também o consultava
constantemente sobre qualquer problema legal.
Um determinado dia, ele precisou viajar para Brasília e foi
até minha sala e foi direto: “-Amanhã cedo teria que dar aula na USP
para o curso de Educação Física. Normalmente meu sobrinho me substitui nesses
casos, mas ele se casou e está viajando. Preciso que você me faça o favor de
dar uma aula amanhã no meu lugar, porque se faltar, o pessoal vai todo embora e
perdem as outras aulas e o Diretor me pega no pé. Eu já informei que será uma
aula especial, voltada para Economia. Não se preocupe, porque são jovens que
querem aprender e são curiosos. Assim, você fale alguma coisa interessante, fale
sobre Economia que automaticamente vão lhe encher de perguntas que você
certamente vai tirar todas de letra.”
Meu Deus! Que vou fazer? Falar sobre o que? Na USP? Pelo
amor de Deus, não tem outra pessoa para lhe substituir? Fiquei apavorado, pois nunca tinha pensado em
dar aula, principalmente num curso da USP. Mesmo sendo para alunos do curso de
Educação Física, vai ser complicado demais! O Dr. Ítalo me tranquilizou e me
disse que o bedel faria minha apresentação e diria que seria a oportunidade
para eles conhecerem um pouco sobre Economia. Sugeri falar sobre Inflação e
Desenvolvimento, que eram assuntos do momento e que, provavelmente, eles iriam
gostar. O Dr. Ítalo achou ótima minha ideia e disse que era para eu me
preparar, pois era um assunto muito tratado na USP e viriam muitas perguntas.
Eu escolhi este assunto, porque tinha feito um trabalho,
juntamente com o colega Roberto, no último ano da Faculdade – 1969 – que
tratava de Inflação e Desenvolvimento e tínhamos tirado nota 9,0. O trabalho
ficou muito bom, e, pelo menos eu teria um roteiro a seguir, pois tinha o
trabalho e poderia estudar um pouquinho antes da aula. Fiquei até meia noite
estudando e vendo que não ia ser nada fácil.
É bom lembrar que em 1975, estávamos na era chamada de
Ditadura e em 1974 tinha havido uma crise internacional do petróleo. Houve um
verdadeiro reboliço econômico, além de ter trocado de Presidente da República
em 1974, quando entrou o Presidente Geisel. Ele havia substituído o Delfim Neto
pelo Mário Henrique Simonsen e mantido no Ministério do Planejamento o João
Paulo dos Reis Veloso. Era tudo muito complicado, principalmente por causa da
crise internacional.
A aula era às 8:00 horas. Fui cedinho para o Campus da
USP, procurei lá o prédio da Educação Física, como o Dr. Ítalo tinha me
explicado. O Bedel já estava me esperando e disse que ainda era um pouco cedo e
me levou para tomar um café. Viu que eu estava um pouco nervoso e me acalmou,
dizendo que era para ficar tranquilo que era uma turma também muito tranquila,
que não era igual aquele pessoal de Ciências Sociais e História, que era tudo
meio de esquerda e mais agressivos. Esses aqui são todos “boa gente” e gostam
mesmo é de ter coisas diferentes na classe.
Tomei o café e fomos para a sala de aula. Eu já estava
bem mais tranquilo. Ele me apresentou como Dr. Freitas, Economista e Diretor de
uma Grande Financeira. Disse que eu falaria sobre a Economia Brasileira nos
últimos dez anos, que eram praticamente os dez primeiros anos da Revolução
Militar que derrubou o Jango. Olhei e estavam todos muito à vontade, ninguém
com caderno e lápis na mão e todos de muito bom humor. Comecei então me
apresentando, disse que trabalhava com o Dr. Ítalo, e que estava ali para falar
sobre o que eu trabalhava, que era a área econômica. Comecei fazendo um pequeno
histórico sobre a inflação que tinha sido controlada, principalmente pelas
medidas tomadas pelo Ministro Roberto Campos e por Delfim Neto. Mas que devido
a crise petrolífera internacional os preços subiram muito e o Brasil, que
naquela época ainda era totalmente dependente do petróleo importado, tivera a
inflação passando de cerca de 16% a.a. para mais de 34% a.a. e que não seria nada fácil continuar
controlando os preços. Comecei a falar do II PND, que era considerado um excelente
plano que foi o que manteve o Reis Veloso no Planejamento, um os alunos
levantou a mão e perguntou: “o senhor poderia nos falar como nós podemos
aplicar o dinheiro sem perder, porque hoje qualquer coisa que a gente aplica
perde!”
Caramba, pensei que estava abafando! Aí um segundo já fez
outra pergunta, e outra e outra... Todas voltadas a investimento. Bem, naquela
época, uma boa aplicação era em Letras de Câmbio e era exatamente o que a
Financeira fazia. Então passei a explicar como aplicar em Letras de Câmbio.
Quando um deles perguntou como e porque se emitia as Letras de Câmbio.
Expliquei que a maioria era decorrente do Crédito Direto ao Consumidor, ou
seja, de quem comprava carros, eletrodomésticos e outros bens financiados.
Daí em diante passamos a discutir taxas, forma de comprar
e vender, resgatar e reaplicar em Letras de Câmbio, ou seja, nada de inflação e
desenvolvimento, mas muito mais fácil, pois era a minha área de trabalho. O Dr.
Ítalo tinha razão, eles fizeram um montão de perguntas que “tirei de letra” e
passamos a “negociar” e nada de aula, mas sim negócios. E, terminado o tempo de
aula, fomos novamente para o café e continuamos “negociando”. Tanto que um
deles, só me lembro do primeiro nome, Epaminondas, se tornou cliente da
Financeira e abriu conta no Banco do Grupo.
Momento marcante, dar uma aula na USP! Nunca foi tão
fácil!
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Nicanor de Freitas Filho