terça-feira, 23 de julho de 2013

Crônica 10 Fábrica de Bolsas Brasil S/A


Vera Ligia Carli

            ZE e MARIA, cansados da dura vida que levavam, sem ver resultado no labutar diário de um trabalho pesado que lhes tiravam o “couro”, alertado por um vizinho esperto, decidiram correr atrás do programa SEM MISÉRIA, patrocinado pela FABRICA DE BOLSA BRASIL.
            O casal, ZE e MARIA são pessoas extremamente pobres em recursos, e, ricos na prole. Geraram tantos, que ate esqueceram o numero exato de filhos. Uns, natimortos. Outros, foram a óbito antes do primeiro ano de vida, vítimas de desnutrição. Remanesceram tantos outros, cuja ordem dos nomes ou de nascimento são incapazes de enumerar.
            Unidos aos filhos, que com eles habitam o mesmo barraco, ZE e MARIA, analfabetos, treinados por interesseiros candidatos a desenhar suas respectivas assinaturas foram levados ao Cartório Eleitoral e com titulo em mãos, recém-conquistado, formavam um bloco de votantes que não se poderia desperdiçar.
            Em contraprestação foram informados da existência de diversos programas nacionais em que poderia toda família se habilitar, tirando proveito dessa industrialização de bolsas produzidas pelo grande fabricante, chamado BRASIL. BOLSAS para todos os gostos feitas e pagas com o couro do contribuinte.
            ZE e MARIA candidataram-se ao BOLSA FAMÍLIA, que engloba o bolsa
alimentação, o bolsa escola e o auxilio gás, embora, no barraco deles o fogão é a lenha e a escola por aquelas redondezas não existe e a verba para alimentos é insuficiente para compra da indispensável farinha de mandioca. Pais e filhos analfabetos.
            O treinamento para desenhar a assinatura no titulo de eleitor foi a instrução básica e fundamental recebida, o suficiente para envaidecê-los com a condição de novos eleitores e a conquista da cidadania, que para eles é como se tivessem concluído curso de doutorado. “Documentados” abandonaram o campo e partiram para a cidade grande, cheios de sonhos.
            A filha, FÁTIMA, de inicio trabalhou como domestica. Foi assediada no emprego por um homem civilizado, filho do patrão, que depois de engravidá-la, a demitiu “por justa causa” e palavras ameaçadoras para fugir da paternidade irresponsável. Sem condições de criar o filho, e, sem creche a acolhê-lo, entregou-o para adoção. Com dificuldade de emprego, provocado pelo analfabetismo, partiu para a prostituição na expectativa de ser favorecida pela propagada e falsa BOLSA PROSTITUIÇÃO de R$ 2.000,00/mês. Não se desestimulou. No ano seguinte, sem temor e sem pudor, surge novamente grávida, desta feita, sem nem saber quem é o pai. Contudo, bota fé no BOLSA FAMÍLIA. Quer seguir o caminho da vizinhança: bolsa escola, bolsa leite, bolsa gás, bolsa família.
            Sem maiores pretensões, ousa a imaginar que melhor sorte teve a sua irmã, ROSINHA, jovem, com 15 anos, muito magrinha, corpo esguio produzido pela fome. Corpinho perfeito. Cabelos naturalmente bonitos, sem jamais ter experimentando qualquer produto químico. No máximo, óleo de babosa natural, quando ainda vivia pelo sertão. Arrumou emprego de ajudante de limpeza em imobiliária da periferia, por onde morava. Graciosa e com bom rebolado, ouvia no decurso de seu caminho de ida e volta ao trabalho o assobio de pedreiros (termômetro de quem está podendo...).
            No inicio do ano, ao descer do ônibus e aproximar de um terreno baldio foi pega e sob forte ameaça levada à força, para imediações da linha do trem, e, se tornou mais uma vitima de estupro.
            Indignada e com razão repudiava o filho que não pediu. Meio preguiçosa e inteiramente esperta. Fez do limão uma limonada. Já pensa depois de usufruir da licença maternidade, abandonar o emprego, depois receber o seguro e correr atrás do BOLSA ESTUPRO.
            O irmão, SEVERINO, deixou a vida de vaqueiro do sertão e passou a ajudante de pedreiro. O peso de transportar a carriola lotada de pedras e tijolos o deixou mais musculoso. Encheu-se de graça. Fez um corte moderno no cabelo. Tatuou o corpo. Passou ouvir os sertanejos e a frequentar botecos de finais de semana. E acabou por conhecer o mal maior. Caiu nas drogas. Perdeu o emprego. Agora pede socorro ao BOLSA CRACK de R$ 1.350,00/mês.
            Quase uma dezena de outros filhos, inatendidos pelo Poder Publico, sem escola, sem creche, com idades variadas, atropelam entre si no minúsculo barraco, uns com chupeta na boca, nariz escorrendo; outros chorando com a fome apertando... totalmente iludidos com o vandalismo de Estado na ofertas das bolsas de nulidades, que muitas vezes os retiram da humildade de suas casas em suas cidades de origens para majorar o sofrimento e morrerem no abandono da cidade grande.
            E há quem aplauda o triunfo das nulidades governamentais.
            E, de tanto ver triunfar as nulidades... digo, o sucesso das BOLSAS, S. Excia, a PRESIDENTE DA REPUBLICA, por via do decreto 8.026/13, publicado em edição extra do Diário Oficial da União, premiou os Srs. Ministros de Estado, servidores federais e os comandantes e oficiais das Forças Armadas com a BOLSA COPA, concedendo aos mesmos o direito de assistirem às partidas da COPA DAS CONFEDERAÇÕES, deslocando-se para as cidades sedes dos jogos com direito a diária suplementar de mais R$ 581,00.
            O contribuinte já não tem mais força para sustentar tanta BOLSA, principalmente, sem saber se estão sendo penduradas em ombros certos ou desviadas para cabides alheios de não necessitados.
            A esperança é que parem de tirar o couro do povo, ou a continuar tirando proveito, necessário que identifiquem os beneficiários com a maior transparência possível, em sites oficiais das instituições concedentes, pois, intolerável que a FABRICA DE BOLSAS BRASIL, continue sendo uma sociedade anônima, onde o cidadão brasileiro, contribuinte, desconheça o destino do tributo pago, porque há sócios preferenciais, não nominados, que se acham cidadãos de classe superior e como guardiões de recursos alheios estão imunes a indispensável, rígida e permanente fiscalização.
            Esse é o reclamo geral.



domingo, 14 de julho de 2013

Crônica 9 INSEGURANÇA PUBLICA


Vera Ligia Carli
          A explosão de meu desabafo nasceu com um grito solidário à dor de uma já tão sofrida e explorada família boliviana que perde um filho de 05 anos,  morto por bala partida de mãos assassinas protegidas pela  fragilidade das leis pátrias.
         E hora de agir. E preciso exercer o direito de eleitor e cobrar resultados dos políticos a quem se deferiu o voto.  Não temos, como eles, a disponibilidade do carro blindado e de segurança privada, privilegiadamente paga pelo contribuinte.
         O cidadão comum permanece exposto ao risco diário de encontrar na sua rota de trabalho com perversos criminosos,  prontos a praticarem hediondos crimes – geralmente em “boa” companhia de um menor,  pré-selecionado para eventual necessidade de assumir a responsabilidade por delitos cometidos por terceiros.
         Não há dia e nem hora. Vale tudo.  O cidadão, para minimização do risco, se auto aprisiona nos fins de semana,  recolhido em casa.  Nada de teatro e cinema.   Restaurante, nem pensar... Esse local virou chamariz de bandidos, em prejuízo do consumidor e do empresário, ambos contribuintes de tributos de extravagantes alíquotas que alimentam a mordomia do Poder.
         Em termos de lazer, ao cidadão comum, permite-se no máximo, uma reunião em casa com a família ou com amigos para um jogo de baralho ou às vezes, um churrasco, este,   para os poucos privilegiados em que o preço da carne enquadra-se dentro do salário  desse país,    dito,  sem inflação!!!
         Os adultos não se conformam com a prisão involuntária,  mas, a condição impõe, e ele, acaba – por falta de alternativa – aquietando-se  dentro de casa  cercada de grades.   Na verdade  se enjaulam. Acomodados,   isoladamente,  no velho sofá,  por imposição da falta de segurança ficam a assistir a exibição na  TV  os dissabores da rua,  praticada por adolescentes selvagens que,  deveriam  - pela ferocidade de seus atos -  estar atrás, ou melhor, dentro das  grades. (sem ofensa aos animais)
         E aos jovens,  filhos, sobrinhos e netos,  como convencer ou impedi-los de sair de casa? Qual outra alternativa se tem,  se  não professar a fé divina na expectativa de que ocorra a saída com direito ao retorno – são e salvo de mãos criminosas de jovens infratores, cada vez mais perversos?
         Como não penalizar um bandido,  que impiedosamente, queima um cidadão por que sua conta bancaria dispõe de apenas R$ 30,00  sob leviano argumento de que tem apenas 17 anos,  11 meses e 28 dias de nascido?
         Esses 02 dias faltantes para sua maioridade civil,  transmudaria sua cabeça infante para o raciocínio adulto?   Se tivesse 18 anos, não teria cometido o mesmo crime e com igual  ou pior selvageria?   Ora,  essa índole satânica está enraizada na alma do delinquente muito  antes de completar  17 anos e eternizará  após  os 18. Não há que se iludir com recuperação para quem  age com tão exorbitante brutalidade.
         A esses malignos “anjos” a permissividade da lei  está a conceder-lhe amplos direitos.  Um,  o de votar. Outro, o de matar. Tornou-se,  assim,  isca valiosa  a ser  captada   para a parceria do crime.  Todos, nos,  povo,  sabemos disso.  E, o legislador,  não?  O que tem a dizer?
         Interessante que,  o leigo atribui a culpa  a  mal remunerada POLICIA. Uns poucos  atribuem a culpa ao  juiz,  a quem cabe aplicar a lei. E como fica o omisso  legislador,  a quem compete a alteração da lei?
         Chega de tanta bondade para quem so busca a maldade.
         Maioridade penal reduzida,  já.
         Pagamos impostos e queremos ter o direito constitucional de ir e vir,  o que se acha há muito tempo cerceado por omissão do Poder Publico.
         O povo esta na rua,   Srs. Deputados.  Venham para rua, também.
         Venham  ouvir a sufocada voz do povo.
         Desse povo cansado com a insegurança publica


SP-03/07/2013

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Crônica 8 Brayan, Anjo Injustiçado


Vera Ligia Carli

            Enquanto a FIFA e poderosos formadores de opinião comemoram no BRASIL a COPA DAS CONFEDERAÇÕES, em que o Brasil foi o dono da FESTA e CAMPEÃO, do outro lado, fora dos luxuosos estádios, (elogiados por estrangeiros de múltiplas nacionalidades), jovens, representantes do povo e formadores da verdadeira cidadania comemoram a COPA DAS MANIFESTAÇÕES. Insatisfeitos, manifestam
não somente pelos R$ 0,20 do aumento da passagem de ônibus, mas, revelam indignação contra a corrupção, a violência e a impunidade.
            Nesse momento para falar da violência e da impunidade, que são filhos da corrupção, preciso mesmo é botar para fora o grito de horror e ajoelhar-me perante os pais do menor, BRAYAN, e, pedir desculpa por eu ter nascido no mesmo país onde foram gerados os monstros que invadiram sua moradia, roubaram os parcos recursos dessa simples família e em seguida, não satisfeitos, desumanamente o
assassinaram.
            BRAYAN, esse anjo injustiçado, morto por sangrentas mãos malignas de bando de criminosos, que na busca de futuro melhor, ao lado de seus genitores, abandonaram seu país, como tantos outros seus patrícios, para aqui dedicarem muitas vezes ate 14 horas diária de trabalho, sentados em maquinas de costuras, em oficinas improvisadas, superlotadas, sujeitando ao recebimento de preço vil por peça produzida para ser vendida a preço vultuoso com etiqueta de luxo de
inescrupulosos empresários que escravizam mão de obra boliviana e em nome do lucro fácil desrespeitam o trabalho infantil.
            Com BRAYAN, o Brasil da impunidade, o Brasil perverso, foi longe demais. Ainda não digerimos a dor da morte de seu conterrâneo KEVIN SPADA, dentro de Estádio de futebol, também, fruto de criminoso ato irresponsável de delinquente brasileiro.
            Portanto, não é mais possível assistir calada a banalização de morte tão brutal praticada por monstrengos que, sem mínima noção de piedade, aperta gatilho de armas letais contra a cabeça de uma criança indefesa, que amedrontada socorre-se do colo materno, e, chorando, suplica para não morrer!!!
            E, tudo isso, depois de seus pais terem entregue a quantia de R$ 4.500,00 - fortuna angariada em conjunto com outros parentes durante um semestre de trabalho - e, o próprio BRAYAN passar às mãos dos meliantes as poucas moedas amealhadas em igual período e guardadas em seu cofrinho para compra de seu presente de aniversario, que ocorreria poucos dias após sua morte!
            Pobre Criança!
            Infelizes, assassinos.
            À BRAYAN, peço a Deus que o receba como um anjo.
            À seus pais e patrícios, que se encontram dentro e fora do BRASIL, minhas desculpas por esse pais perverso.
            Aos políticos brasileiros que se envergonhem com essa monstruosidade e se sensibilizem quanto à necessidade de uma legislação mais rigorosa, com imposição de cumprimento integral da pena, (melhor seria a prisão perpetua ou para caso similar, pena de morte) e redução da maioridade para 12 anos.
            CHEGA de impunidade!
            VIVA a COPA DAS MANIFESTAÇÕES.
            À União, cabe o dever do pedido publico de perdão, do pagamento de indenização a essa sofrida família, iniciando pela assunção das despesas de translado do corpo do menor ao seu pais de origem, (na mesma aeronave oficial, ostentando a bandeira brasileira que se pretende fazer uso para o BOLSA “COPA”) onde seus pais desejam retornar - em caráter definitivo - e ali sepultar o corpo de
BRAYAN, e, não permitir que esse ônus seja - injustamente – suportado pelo CONSULADO GERAL DA BOLÍVIA, como receita mínima de aprendizado de solidariedade desse pais da violência e impunidade que tanto macula o nome do BRASIL pelos quatro cantos do mundo.

            BRAYAN, ouça meu grito de protesto!

domingo, 12 de maio de 2013

Crônica 7 “In memoriam”



João Batista de Freitas
Meu querido irmão Luiz, falecido com apenas 58 anos, era apenas 3 anos mais velho do que eu. Passamos quase toda a infância juntos, vendo os irmãos mais velhos saírem de casa para estudar fora, procurando um jeito de achar um caminho melhor na vida, já que éramos uma família bastante pobre. Assim, Luiz se tornou uma espécie de protetor e mentor para mim, ensinando-me quase tudo: fazer e soltar pipa, usar arco e flecha, manejar um martelo, jogar bola e bolinha de gude, escrever em letra de forma, os primeiros acordes no nosso velho violão, andar de bicicleta e muitas outras coisas gostosas da infância.
Assim, quando eu tinha dúvidas, era a ele que eu perguntava primeiro, mas nem sempre as respostas eram exatas, até porque ele também era uma criança.
- Luiz, o que é horizonte?
- É Deus, Magrelo!! (como ele me chamava )
E assim fomos crescendo, cheio de dúvidas e meias verdades. Mas a maior de todas foi a que conto agora. Por volta do final dos anos 60, nós, que já gostávamos muito de música, curtíamos Beatles e Simon & Garfunkel. E, claro, eu não sabia nada de inglês, mas gostava de cantarolar como se soubesse o que falava. Na época, a música de sucesso da dupla era “The Boxer”, que nós ouvíamos e tentávamos “tirar” no violão – em dó maior, lembro-me bem. Aí eu fiz a fatídica pergunta:
- Luiz, o que fala a letra da música?
E sua resposta foi maravilhosa para um pré-adolescente, mais ou menos assim:
- Conta a história de um boxeador. Ele era pobre, mas muito forte, e gostava de lutar. Então, tornou-se um boxeador e ganhava todas as lutas. Mas apareceu outro boxeador, tão bom quanto ele, também invicto. Este boxeador lutava sempre mascarado, e sua identidade era desconhecida. Até que um dia o inevitável aconteceu: ambos tiveram de se enfrentar, porque eram os únicos invictos da categoria. Mas o boxeador era melhor, e bateu tanto no mascarado que ele morreu no ringue. E quando tiraram a sua máscara, ele viu que era seu irmão.
Oh, meu Deus, quanta imaginação!! Não preciso dizer mais nada. Mas até hoje, quando escuto esta bela canção, fica no meu imaginário a história contada pelo meu saudoso irmão. Para quem não conhece a música e a letra, segue abaixo o original e uma versão livre que peguei na internet. Tirando o fato de que o cara era realmente pobre, a música, apesar da bela história, nada tem de tanto imaginoso.
Fique em paz, irmão! Um dia nos veremos aí em cima!

The Boxer
I am just a poor boy
Though my story's seldom told
I have squandered my resistance
For a pocket full of mumbles
such are promises
All lies and jests
Still a man hears what he wants to hear
And disregards the rest
When I left my home and my family
I was no more than a boy
In the company of strangers
In the quiet of the railway station running scared
Laying low,
Seeking out the poorer quarters
Where the ragged people go
Looking for the places only they would know
Lie la lie...

Asking only workman's wages
I come looking for a job
But I get no offers,
Just a come-on from the whores on Seventh Avenue
I do declare,
There were times when I was so lonesome
I took some comfort there
La, la, la,
Now the years are rolling by me, they are -[rockin evenly]-
I am older than I once was
And younger than I'll be that's not unusual.
No it isnt strange after changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same
Lie la lie...

Then I'm laying out my winter clothes
And wishing I was gone
Going home
Where the New York City winters
Aren't bleeding me
leading me, going home
In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of ev'ry glove that layed him down
Or cut him till he cried out
In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving"
But the fighter still remains
Lie la lie...

O Boxeador
Eu sou apenas um menino pobre
Embora minha história seja raramente contada
Eu despedacei minha resistência
Em troca de um bolso cheio de resmungos
Feito promessas
Tudo mentiras e chacota
Ainda assim, um homem ouve o que quer ouvir
E descarta o resto
Quando eu deixei meu lar e minha família
Eu não era mais do que um menino
Na companhia de estranhos
Na quietude de uma estação de trem, fugindo amedrontado
Mantendo-se escondido
Buscando os alojamentos mais baratos
Onde o povo esfarrapado vai
Procurando os lugares que apenas eles saberiam

Solicitando apenas salário de trabalhador
Eu vim procurando por um emprego
Mas não recebo ofertas
Apenas um vem cá das garotas da Sétima Avenida
Eu declaro
Houve momentos em que estava tão solitário
Que tomei algum conforto lá
Agora os anos estão passando por mim,
Eles estão agitando uniformemente
Eu sou mais velho do que eu fui uma vez
E mais novo do que serei, isso não é raro.
Não, não é estranho depois de mudanças e mudanças
Nós somos mais ou menos os mesmos
Depois de mudanças somos mais ou menos os mesmos
Lie la lie...

Então estou estendendo minha roupa de inverno
E desejando que estivesse partido
Indo para casa
Onde o inverno da cidade de Nova York
Não estivesse me sangrando
Me levando, indo para casa
Na clareira em pé está o boxeador
Um lutador por ofício
E ele carrega uma lembrança
De cada luva que lhe abateu
Ou lhe cortou até gritar
Em sua raiva e sua vergonha
"Estou indo embora, estou indo embora"
Mas o lutador ainda permanece...

            Se quiser ouvir e assistir ao vídeo de Simon e Karfunkel:

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Esportes 8 – Futebol e Papagaio



Nicanor de Freitas Filho
            Por mais que eu queira só contar causos, tem hora que não dá! Terça e quarta-feira da semana retrasada assisti, pela TV, quatro jogos de futebol. Bayern 4 x 0 Barcelona, Borussia Dortmund 4 x 1 Real Madrid, Brasil 2 x 2 Chile (Mineirão)e Brasil 2 x 1 Peru (Sub-17). (hoje já sei que o Brasil empatou de 2 x 2 com o Paraguai e não tem mais chances de chegar ao título).
            Embora na Europa eu “torça” pelo Real Madrid, não posso deixar de confessar, que aprecio muito o futebol do Barcelona, não só por Messi, mas pelo padrão de jogo que foi implantado pelo grande craque holandês Johan Croyff, seguido por Guardiola e, ao que parece, está ficando um pouco desatualizado. Não está “vencido”, apenas desatualizado, pelo menos pelo que vimos na terça e quarta-feira passadas.
            Eu aprecio muito o futebol do Barcelona, pelo avanço que deu na forma de se jogar. Realmente, diferenciou muito na essência do futebol. Este quando foi criado, na Inglaterra, cada turma de jogadores era chamada de “team” e que em Português, pelo menos no Brasil, virou “time”, mas na verdade a tradução de “team” é “equipe”, porque se jogam 11 jogadores, uns ajudando aos outros, ou seja, formando um jogo de  equipes.  E foi o que o Croyff implantou no Barcelona. Tanto é verdade que o número de troca de passes e o deslocamento de jogadores é impressionante! Geralmente ficam com a bola em mais de 2/3 do tempo de jogo.
            Os clubes brasileiros e também a nossa Seleção (incluindo a sub-17), não entendeu a evolução do jogo de futebol. Continuamos jogando nos famosos esquemas criados, principalmente a partir de 1966, quando saímos do 2-3-5 para 4-2-4, alguns 4-3-3, outros 2-4-3-1 ou ainda os que jogam com 3 zagueiros 3-4-3. O Barcelona joga de tal forma que podemos dizer que jogam num esquema 4-4-4. Mas como eles jogam com 12 jogadores de “linha”? Não! Só que, como jogam em equipe, tem sempre 4 jogadores na “jogada” e 4 na retaguarda. Eles se deslocam e trocam passes com tanta facilidade, e, principalmente habilidade – e treinamento – que se transformam em 4-4-4. Vocês já repararam o quanto o Messi, Iniesta, Xavi, Pedro, David Villas, voltam para marcar? E o quanto o Daniel, Jordi, ou Adriano atacam? E o quanto o Piqué e Busquets armam jogadas? Então é isso aí!
            Enquanto isto nossa Seleção continua jogando com dois zagueiros bem atrás, dois volantes “marcadores” um homem para “armar” as jogadas, um atacante que faz o “pivô” e mais dois laterais e dois “ajudantes”, um para os volantes e outro para o armador. Assim, na maioria das vezes ficamos num 4-4-2... “Volante que marca gol é bonitinho para a imprensa, não para o time”, ouvimos isto alguns dias atrás... Lembram-se? E assim foi o jogo de 2 a 2 com o Chile. Leandro Damião, Ronaldinho, Jadson, Neymar, nem pensar em voltar para marcar. São “criadores” ou “matadores”. O que aconteceu? Uma grande vaia para a Seleção em pleno Mineirão, e os gritos de olé a cada troca de passes da Seleção Chilena.
            Pior, é que no jogo da Seleção sub-17, treinada pelo senhor Galo, jogando no mesmo padrão CBF. Ganhou, por acaso, da fraquíssima Seleção do Peru, que se não me engano, não ganhou nem empatou nenhum jogo ainda, no hexagonal. Por isso mesmo é que o nosso novo treinador só ganhou da Bolívia (ganhou de quem?? da Bolívia??)! Ah! Bão!! Mas o jogo não foi em Oruro não, a quase 4.000 metros de altitude! Então ganhou de ninguém!
            Isto me faz lembrar de quando era criança e tinha como um dos meus hobbies soltar papagaio (ou pipa como alguns dizem). Quando fui soltar pela primeira vez, lembro que a linha era enrolada num pedaço de madeira (cabo de vassoura cortado). Mais adiante começamos a usar as latinhas de massa de tomate, pois eram mais grossas e enrolava mais depressa. Para soltar papagaio é importante você ter o total controle da linha, pois para fazer o papagaio subir, ou tem que estar ventando forte, ou você dar um corrida, até o papagaio pegar certa altura, ou se você puxar a linha com muita rapidez.  Muitas vezes, para fazer o papagaio subir, a gente tinha que correr e ainda enrolar a linha na latinha para puxar mais rápido. O “puxar rápido” também era importante, porque tinha alguns “bandidinhos” que enroscavam seus papagaios com os outros e puxavam rápido, “roubando” o papagaio dos mais fracos. Assim, apareceram aqueles marmanjos com as latas de óleo, que eram bem mais grossas e enrolavam a linha mais depressa. Mas tinha que ter mão grande, para segurar a lata muito mais grossa. E, logicamente, tinha aqueles que tinham poder aquisitivo e mandavam fazer as tais das carretilhas, estas sim, puxavam os papagaios com muita rapidez. Muitas vezes até para subir o papagaio, bastava “dar linha” e enrolar rápido na carretilha que ele subia.
            Até que um dia, meu Padrinho Tarcísio – que era mecânico-eletricista – fez para mim uma carretilha diferenciada. Ele utilizou um jogo de engrenagens, de uma antiga furadeira manual, cuja relação de rotação era de aproximadamente, quatro vezes, ou seja, cada volta que eu dava na manivelinha, as pás enroladoras, davam quatro voltas. Fácil! Não precisava nem correr para soltar o papagaio. Bastava enrolar rápido minha carretilha-de-engrenagens que o bichinho subia fácil. Ninguém mais me “roubava” papagaio, pois eu era capaz de puxar muito mais depressa que qualquer um dos “bandidinhos” que usavam lata de óleo, ou mesmo carretilha comum.
            Porque que eu fui me lembrar disto, relacionando ao futebol? Porque essa carretilha com engrenagens era igual ao 4-4-4 que o Barcelona joga. Não tinha como perder! Pois é, tive sorte que não apareceu ninguém com uma carretilha impulsionada a um motorzinho a pilha, como essas do Bayer e do Borussia! Porque eles passaram a jogar num 5-5-5 que estraçalhou as carretilhas do Barcelona e do Real Madri (bem verdade que esta tem um jogo de engrenagem só de dois por um...).
            E não é que o Felipão continua dando “latinhas de massa de tomate” para nossa Seleção soltar papagaios na Capa das Confederações?

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Homenagem - Minha Filha(?)


A Homenagem
Publicando este poema, escrito por meu irmão – que já não está mais conosco – para homenagear sua filha, que havia falecido em 1999, homenageio os dois! Hoje faz 4 anos da precoce morte dele. Que estejam com Deus!!


                       Minha Filha (?)

                                                               Luiz de Freitas

Nasceu em uma tarde linda
Por isto tinha um brilho radiante
A beleza de uma noite enluarada
E uma inteligência intrigante!

Tudo em sua vida foi precoce
Só não lhe sorriu a sorte
Pois esta rosa, quando ainda em botão,
Foi colhida pelas mãos da morte!

Enquanto viveu só nos deu alegrias
Viveu como a gente quis
Só não sei dizer, com certeza,
Se ela também foi feliz!

Humilde, doce, sincera, meiga,
Tinha para todos um grande sorriso
Sem preconceitos de qualquer tipo
Sua partida foi para nós um aviso.

Aviso de “filhos” não são nossos
Temos apenas licença de criar e educar.
Na verdade, são filhos de Deus
Que os chama, quando deles precisar.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Causo 83 Doutor Armando



Nicanor de Freitas Filho
            Logo que chegávamos na Escola Agrotécnica de Pinhal, tínhamos que fazer exames ergométricos. Medição, pesagem, assopro, teste de força, exame da pele, garganta, olhos e pênis. Aí o Dr. Armando dizia, todo mundo nu, como nasceu. E mandava levantar a perna, a outra perna, levantar os braços, vire de costas, volte para frente e puxe o prepúcio. Se não fosse até o final, ele dizia, fica ali à esquerda. Foram uns 10 ou 12. Eu não estava nessa turma. Então ele explicava o que era fimose e porque tinha que ser feita a cirurgia. Principalmente por problema de higiene. Encheu a Enfermaria, logo na primeira semana. O Dr. Armando cuidava de nós, alunos, como se fôssemos filhos dele. Ele era muito “gente boa”!
            Tem um caso que não esqueço nunca. Estávamos na quadra jogando basquete para suar e ir para o banho, antes do almoço. Tínhamos que suar porque lá só havia água fria nos banheiros.
            À tarde a turma do 2º Ano de Mestria teria prova de Matemática. Um de nossos colegas dessa classe, que não me lembro do nome agora, não queria fazer a prova, pois com certeza não tinha estudado. Então ele correu para a cesta e trombou com o poste que suporta a cesta, caiu e desmaiou. Tentamos de toda maneira reanimá-lo, mas não teve jeito. Ele ficou lá no chão mole, desmaiado. Aí tivemos que chamar o Dr. Armando, que desceu até à quadra com a estreita maca que tinha lá na Enfermaria.   Colocamos o colega na maca e subimos para a Enfermaria, onde ele foi colocado na mesa do ambulatório. Depois de auscultá-lo por um bom tempo, abrir os olhos dele e examinar com aquela lanterninha, bater na sola do pé dele, levantar e baixar os braços e as pernas algumas vezes, ele disse: “- O caso dele é realmente sério e grave!” Isto nos deixou muito preocupados, pois estávamos ali em 4 ou 5 que ajudamos a levá-lo de maca, vendo todo aquele cerimonial dos exames. Ele então completou: “ – O caso é tão sério que vou ter que aplicar nele uma injeção de 300 ml de um líquido que contém ácido e arde pra burro. Sorte é que ele está desmaiado, senão não aguentaria a dor!” E pegou uma seringa  veterinária de uns 25 cm encheu-a de água, colocou uma agulha enorme na ponta da seringa e pediu para que cada uma de nós segurássemos um pé e uma mão, com força, porque ele iria reagir com violência, por causa da dor. Quando seguramos os pés dele, ele começou a se mexer, virou um pouco a cabeça para o lado e com a maior “cara de pau” do mundo perguntou como quem está chegando: “– O que houve? Onde que eu estou?” O Dr. Armando disse: “– Fique quieto que preciso lhe aplicar esta injeção agora, senão será muito tarde e pode voltar o desmaio.” Ele foi logo dizendo: “-Não Doutor, já estou bem, já está passando o mal estar, pode deixar.” Mas o Dr. Armando insistia que tinha que lhe aplicar a tal injeção.  E nessa altura ele já estava de pé, dizendo que estava tudo bem. É claro que o Dr. Armando, ao examiná-lo, percebeu a farsa e encontrou uma maneira rápida e didática de “curá-lo”. Ele era assim, tinha solução para tudo!

domingo, 7 de abril de 2013

Causo 82 Meu Fox Paulistinha apaixonado...



Regina Célia Mastine
            Mozart, o meu Fox paulistinha, meu companheiro, minha segurança no trânsito, pois sempre quando abro a porta de meu carro ele é o primeiro a entrar. Já latiu muito para um possível assaltante, que chegou a colocar a mão sobre o vidro da janela de meu carro, mas que saiu assustado com as latidas do meu Mozart. Sinto que ele me protege!
            Um belo dia, Mozart ficou apaixonado pela cachorrona do vizinho de nossa chácara. Ele adentrou na chácara da frente e não conseguimos tirá-lo de lá, acontecendo então a sua primeira noite de núpcias... Ficamos preocupados, pois ele estava cansado, com a língua enorme para fora e não alcançava na enorme cachorra... Subiu nas costas dela com um pulo, muito empolgado e cavalgou... Foi muito engraçado! Nunca vi um cão montado sobre uma cadela e ela deslizava nas gramas e jardins, encaravam a escuridão das matas para observar a lua cheia, lá no Vale do Igapó.
            Eram livres, tão absurdamente livres, quando galopavam pelos verdes dessa terra, que o próprio chão parecia sumir para facilitar a decolagem em direção a um paraíso qualquer.
            Quem ama, esse companheirismo e essa interação nada têm de fictício, eu estava batendo fotos deles, mas deveria tê-los filmado, pois estava encantada e meio extasiada com a situação...
            Então! Isso vai virar um causo mineiro, sou Itajubense, sô!
            Tivemos que deixá-lo na chácara do vizinho que estava fechada e o dono ausente... Sem saber como tirá-lo de lá, pois as cachorras – eram duas – avançavam na gente... A única informação que tínhamos do vizinho é que ele trabalha no INSS. Então na manhã seguinte fui cedinho ao INSS para entrar em contato com o dono da chácara em frente da nossa e sabia apenas o primeiro nome do proprietário. Lá chegando perguntei ao segurança, na portaria, pelo tal funcionário. Ocorre que havia dois funcionários com o mesmo nome, não sabendo o sobrenome, mas para identificar expliquei que era o que tem uma chácara no vale do Igapó.
            Fui informada que ele estava em férias e o celular que me passaram não atendia. Depois que mostrei as fotos que comprovavam a situação de meu Fox paulistinha, uma gentil funcionária entrou em contato com a loja da esposa, explicou o que estava ocorrendo com o Mozart; eles então me passaram o endereço...  Depois de acertarmos uma hora, fui então à chácara para buscá-lo e o proprietário vizinho também ficou de ir para lá. Quando cheguei vi o meu Fox paulistinha apaixonado, rolando com a cachorrona e ele não estava nem aí comigo, nem pulou de alegria quando me viu, como sempre fazia, rolando com a “noiva” na terra, também apaixonada e encardida... Quando finalmente consegui colocá-lo no meu carro ele veio chorando e gritando, incontentável com apenas uma noite de lua de mel!
           
Bauru, fevereiro de 2013.

domingo, 31 de março de 2013

Crônica 6 Livinha


Estando sem tempo para escrever, e, não querendo deixar um espaço de tempo muito grande sem postar no meu blog, resolvi hoje, homenagear sobrinha e filha, com um texto desta, escrito pouco mais de dois anos depois de perder a prima de menos de 20 anos, que estudava Matemática na Universidade de São Carlos e estava no auge da juventude, que, se viva fosse, completaria hoje 34 anos.

Livinha

Claudia Fonseca de Freitas Saraiva
            Uma criança retrata o mais sincero sorriso, um gostoso sorriso. Fofinha para apertar e carinhosa para retribuir o apertão. Foi a Copa do Mundo de 1982, a última Copa que eu passei em Frutal, que tanto chorei porque o Brasil perdeu; mas é a lembrança que eu tenho dela criança... não me lembro dela bebê, mas tenho nas minhas imagens a meiga criança que eu pegava para sentar no meu colo, e ficava abraçada querendo cuidar.
            A adolescente... quantos segredos, quantas paqueras, quantas voltinhas de carro nos mesmos quarteirões, conversas infinitas trancadas no banheiro...  CUMPLICIDADE!!! Coisas de adolescente, talvez a melhor fase da vida. Mais que primas... AMIGAS DE VERDADE!!! Segredos, segredos, segredos, até hoje compartilhamos segredos e cumplicidade.
            A adolescente linda e vaidosa, o cuidado incansável com os cabelos, sempre maravilhoso. Caminhadas, cardápios de regimes, e um sorriso sempre estampado no rosto, a alegria de tantos e tantos amigos, divertida, boa filha, ótima prima, excelente amiga, pessoa ímpar.
            Adolescente, de futuro promissor, resolveu se aprofundar na matemática da vida:
                        •         SOMOU AMIGOS!!!!
                        •         MULTIPLICOU ALEGRIAS!!!!
                        •         DIVIDIU SEU TEMPO
                        •         DIMINUINDO O CAMINHO DA VIDA!!!!
            Eu não entendia porque diminuir o caminho da vida, aqui estava tudo tão legal...
Aí ela não me esqueceu, veio me explicar a confusão da matemática da vida, que eu nada entendia.
            Quando ela se foi eu a transformei num anjo, porque só um anjo vai embora de repente, tão cedo, sem deixar explicações. Meu coração ficou tão pequeno, mas tão pequeno... e o anjo resolveu voar até mim... Era um anjo adolescente (todo anjo é criança ou adolescente), mas era um anjo de calça jeans e camiseta branca, com o cabelo comprido, castanho claro com bastante luzes, um sorriso estampado no rosto... era a MINHA PRIMA que veio lá do céu tentar me explicar o que eu não compreendia, ela estava linda, radiante, cheia de vida, não era um anjo de asinhas, era a LIVINHA que estava comigo e ela não cansava de repetir:
“EU ESTOU ÓTIMA, AQUI TUDO É MARAVILHOSO”, dava umas gargalhadinhas e continuava “OLHA COMO ESTOU BEM!!!!” Não sei por que, mas tudo se inverteu, eu estava com a cabeça deitada no colo dela, logo, agora eu é que tinha a proteção dela, ela é que me abraçava... .... eu entendi e aprendi:
- A vida nunca acaba, o caminho é interrompido, nunca diminuído, apenas muda-se a estrada... OS AMIGOS SOMADOS jamais serão esquecidos!!!! AS ALEGRIAS VIVIDAS podem continuar se MULTIPLICANDO com as boas lembranças (e que são inúmeras).
DIVIDIR O TEMPO é algo que faremos o resto da vida, porque temos pais, irmãos, amigos, desconhecidos que aqui cruzamos todos os dias nas ruas e ainda temos DEUS, com o qual somos muito egoístas, deixando por último, esquecendo que Ele nos trouxe aqui e que também tem saudades da gente, e que também quer estar com a gente..
E o melhor é que o caminho da vida NÃO DIMINUI NUNCA, por mais inacreditável que pareça, a esperança de a gente se encontrar é infinita o que REDUZ A ZERO a tristeza, PORQUE ESTIVEMOS E ESTAREMOS SEMPRE JUNTAS, todos os dias, e isso é maravilhoso, e eu entendi e aprendi a viver assim.
            Quanto à saudade... essa que dói no coração, ela não soube me explicar, essa saudade me faz chorar muito... mas a Livinha ainda é uma menina, não pode saber explicar tudo, até porque eu tenho comigo que a saudade é recíproca, então não dá pra explicar, por isso ela aparece, por isso TODOS OS DIAS ELA CONTINUA AQUI COM A GENTE, E DISSO EU TENHO CERTEZA !!!! TE AMO MUITO LIVINHA. PRIMA-IRMÃ-AMIGA  
SP.  Agosto/2001. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Causo 81 O anjo da guarda do tio Luiz



Priscilla de Freitas Peretta
            Bom, vamos ver se vão aceitar causo ouvido (e não vivido, como se era de esperar) de uma jovem (não das mais jovens) representante desta família Freitas.
            Assim eu gravei o que ouvi do meu querido tio Luiz, que já não está mais entre nós, e com o qual eu gostava muito de conversar, pelo seu jeitinho manso e sempre espirituoso. Certamente, muitos fatos foram distorcidos em minha memória, pelo tempo e pela pouca idade que eu tinha quando ele me contou. Corrijam-me os que viveram de perto. O fato é que a estória me agrada muito assim mesmo como lembro dela, ainda que eu possa tê-la assimilado de forma um tanto quanto fantasiosa...
            Num dos memoráveis encontros de fim de ano da família inteira, que costumavam acontecer em Araxá ou Frutal e que significavam os melhores dias do ano para nós, então pequenos, lembro que falávamos sobre o vício do cigarro, quando tio Luis começou a contar-me.
            Era sua primeira viagem para a Escola Agrotécnica de Muzambinho, acompanhado do irmão mais velho Daniel – meu pai – que já estudava lá e que tinha vindo para as férias em Araxá. Ao contrário dos irmãos, tio Luiz, então com apenas 12 anos, não tinha a prática de pegar o trem e acabou perdendo-o numa das paradas, ao descerem não sei exatamente para quê, talvez para a baldeação em Ribeirão Preto ou Casa Branca – que se fazia para ir a Uberaba. Desesperado, já chorando por ter-se perdido dos outros, foi abordado por um guarda da estação que resolveu ajudá-lo, levando-o à casa de um seu amigo taxista que morava perto da estação. O guarda pediu que o taxista levasse o menino até a próxima estação – pois o carro, sendo mais rápido, seguramente chegaria antes do trem – para que ele pudesse pegar o trem novamente.
            Assim, tudo correu bem e o tio Luiz entrou no trem, aliviado, mas ainda um tanto assustado pelo ocorrido. Ao seu lado, estava sentada uma senhora mais velha que viu seu estado e começou a conversar com ele. Para acalmá-lo, ofereceu-lhe um cigarro, que naquele tempo era considerado um bom remédio para várias coisas, inclusive para acalmar. “Assim comecei a fumar”, me disse o tio. Mas a estória não acaba aí. Voltando a Araxá, nas férias creio, contou a sua mãe, vovó Edith, como o guarda da estação tinha sido gentil com ele. Vovó, muito agradecida, providenciou uns doces para que o tio levasse ao homem quando retornasse a Muzambinho, passando por aquela estação.
            E assim foi. Chegando na tal estação, o menino colocou-se a procurar o guarda e nada. Foi perguntar a outros que trabalhavam ali por um senhor alto, negro, vestido com um uniforme de guarda, que o tinha ajudado. “Mas não temos nenhum empregado negro aqui”, ouviu. Resolveu então ir até a casa do taxista, ali perto. Porém, essa parte do causo ficou um pouco obscura pra mim. Não me lembro se não encontrou ninguém em casa ou se o homem que morava ali disse que não  conhecia o menino, nem o tal guarda. Mas lembro que a casa e o carro na garagem tinha, igualzinho o tio se lembrava. Acho que era isso. Concluindo sobre o mistério, com seu sorriso sereno, tio Luiz me disse: “Por isso, tenho certeza de que meu anjo da guarda é negro”. A isso, seguiu-se um curto silêncio, logo acompanhado de uma nota do violão. E eu achei tão bonito tudo isso, ainda fico emocionada quando me lembro do jeito dele de contar causos e de tocar violão.
            Contando isso ao guardião-mor dos causos de família, tio Nica, outra bela parte se acrescenta a esta estória. Trata-se da música, muito apreciada pelo tio Luiz, “Angelitos negros”, conhecida na interpretação de Antonio Machin, mas que foi criada sobre versos do poema do venezuelano Eloy Blanco, nascido no século XIX. Dizem que na Basílica de la Macarena estão las Vírgenes de Hispanoamérica, dentre as quais a Virgen de Coromoto, patrona da Venezuela. Um quadro desta Virgem feito pelo pintor Pedro Centeno Vallenilla teria inspirado o grande poeta que, ao vê-la rodeada de anjos loiros, morenos e índios, sentiu a falta dos anjinhos negros.
            Certamente o mistério do Anjo Negro me impressionou tanto que não prestei atenção à música que tio Luiz cantou depois. Nada como a memória compartilhada para tornar o passado mais vivo.           
A música diz:

Pintor nacido en mi tierra
con el pincel extranjero,
pintor que sigues el rumbo
de tantos pintores viejos.
Aunque la virgen sea blanca,
píntame angelitos negros,
que también se van al cielo
todos los negritos buenos.
Pintor, si pintas con amor
por qué desprecias tu color
si sabes que en cielo
también los quiere Dios.
Pintor de santos de alcoba,
si tienes alma en el cuerpo,
por qué al pintar en tus cuadros
te olvidaste de los negros
Siempre que pintas iglesias,
pintas angelitos bellos,
pero nunca te acordastes
de pintar un angel negro.
Siempre que pintas iglesias,
pintas angelitos bellos,
pero nunca te acordaste
de pintar un ángel negro.