terça-feira, 26 de setembro de 2017

Amigo Secreto

Nicanor de Freitas Filho

            Nos quarenta e três anos que trabalhei, sempre houve nos finais de ano, as festas do “amigo secreto” ou “amigo oculto” como dizem no Rio de Janeiro. Sempre super- divertidas e muitas vezes difíceis de resolver dependendo do nome que você tirava... Nos últimos anos que participei, sempre era estabelecida uma faixa de preços para evitar “constrangimentos”. Lembro-me perfeitamente de um ano que, curiosamente um participante tirou o nome de quem tirou também o seu nome. Então na hora da entrega, um deles deu uma garrafa de cachaça ruim, com a curiosidade que a garrafa era toda amassada e segundo ele nem dava nem para guardar. Entretanto ele havia comprado para o seu “amigo” uma caneta Cross, que na época era cara para os padrões de amigo secreto. Naquele tempo – anos 70 – usava-se muito a caneta.
            Pois bem, tínhamos um colega na empresa, cujo apelido era “Bolinha” – lembra bem o Rodrigo Maia – e sempre muito “nervosinho” e vivia levando gozações. No jogo do amigo secreto, tirou o nome dele a chefe dos Serviços de Secretaria, que era muito divertida e criativa. Ela comprou de presente para Bolinha uma linda camisa social branca, pois era obrigatório o uso da gravata naquela época. Mas antes de entregar a camisa ela lhe entregou uma enorme caixa, provavelmente de um fogão, muito bem embrulhada com papel de presente, laço de fita e tudo mais. O Bolinha viu que não era um fogão, pois ela estava carregando a caixa. Ao desembrulhar encontrou uma caixa menor, também embalada para presente com laço de fita. Ao abri-la encontrou outra caixa menor e assim foram umas oito ou dez caixas, sempre bem embaladas até  chegar numa caixa menor que uma caixa de sapatos que parecia vazia, pois ele sacudiu e não fez barulho e estava muito leve. Ele pensou em jogá-la fora, mas não deixaram. Quando ele levantou a tampa, tinha uma “bolinha” de ping-pong, presa com fita adesiva. O “Bolinha” jogou-a no chão e sapateou sobre a caixa todo nervosinho... Depois de reclamar muito, no meio daquela papelada toda, a Secretária lhe entregou a linda camisa. Foi uma brincadeira muito bem bolada e executada, que nos fez rir muito. Inesquecível! 
            Anos depois, numa outra empresa, que ficava na Rua Quintino Bocaiuva, foi feita a festa do amigo secreto e foi estipulado o valor mínimo de Cr$ 30,00. Bem em frente a empresa, constantemente ficava um “Camelô-Ambulante”, que vendia um mundo de bugigangas, entre elas, uma Pantera-cor-de-rosa, de plástico que custava Cr$ 5,00. Essa empresa é a mesma em que ocorreu, um ano antes, a troca da garrafa de cachaça pela Caneta Cross. Então, lembrando-se do fato, o Contador da empresa disse, que pelo menos, não poderia ganhar a Pantera-cor-de-rosa, pois só custava Cr$5,00. Adivinha quem tirou o nome dele? A Secretária dele, que estava ao seu lado, quando disse sobre a Pantera-cor-de-rosa.  Ela comprou um par de sapatos que ele tinha visto e manifestado o desejo de adquiri-lo. Só que comprou também a Pantera-cor-de-rosa, e colocou-a junto com um saquinho de areia – para ficar pesado – na caixa do desejado sapato. Fez um lindo pacote de presente, com cartão e tudo mais. A tradição era que os presentes ficavam todos em cima da mesa de reunião e era sorteado o nome da pessoa que iria entregar o presente. Ele pegava o presente e dava algumas dicas sobre a pessoa que ia ganhá-lo. E só fazia a entrega quando o ganhador se descobria, com as dicas e se apresentava.
            Pois bem, a Secretária pegou a caixa de sapatos, falou alguma coisa sobre o Contador, ele por duas vezes chegou a se movimentar para se apresentar, mas ainda não tinha se convencido de que era ele mesmo. Até que ela deu a dica do sapato ele se apresentou, pegou o pacote todo feliz, estava pesadinho por causa do saquinho de areia e abriu o pacote. Quando deu de cara com a Pantera-cor-de-rosa, deitadinha em cima do saco de areia, a reação dele foi exatamente igual à do Bolinha – que ele nem conhecia – jogou no chão e sapateou sobre o brinquedo de plástico, destroçando-o... Não dava nem para levar de presente para alguma criança... Aí então, a Secretária pegou um saquinho, desses de cordão e entregou para ele o sapato desejado, antes que ele sofresse um infarto!
            Ambos, os presenteados – Bolinha e o Contador – ficaram muitos bravos, mas para nós que assistimos as brincadeiras, foi tudo muito divertido, tanto que não esqueço!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recipes for Life

Nicanor de Freitas Filho

            Depois de trabalhar na Propasa, como Gerente de Exportação de Cadernos (https://freitasnet.blogspot.com.br/2017/07/cuiaba-fui-e-voltei.html), em 1994 fui trabalhar na OESP Gráfica, como Gerente Comercial. E era muito ativo no meu trabalho, não só porque gostava do que fazia, como tinha lá alguns conhecidos, da época da Cia. Melhoramentos, que aliás, foi um deles quem me indicou ao Diretor que me contratou. Eu me integrei muito bem à Equipe e por isso podia sempre opinar e solicitar algumas melhorias nos equipamentos e metodologias, para atender meus clientes. Naquela época, estava muito bom o mercado de livros Porta a Porta. E, graças a Deus, eu soube explorar muito bem esse mercado. É um mercado essencialmente de livros de Capa Dura. A máquina de fazer Capa Dura da OESP não era das melhores, assim solicitei que, se fosse possível, deveríamos trocá-la. Minha sugestão foi defendida pelos Gerentes de Produção e de PCP, pois eles sabiam a dificuldade que tinham na produção desse tipo de livro.
            Assim, nosso Diretor foi ao mercado, pois as máquinas novas da Kolbus eram realmente muito caras.  Ele encontrou uma empresa em Leeds, na Inglaterra, que se propunha a encontrar a máquina, reformá-la e vende-la à OESP. Passados uns 15 dias a empresa – não me lembro o nome dela – informou que encontrou a máquina que queríamos e estava em muito bom estado e precisava apenas de ajustes, pintura e maquiagem. Até estiveram nos visitando, antes de fechar o negócio (veja outro causo: http://freitasnet.blogspot.com/2011/07/causo-16-na-redacao-do-estadao.html ). Assim,  nosso Diretor queria que o Gerente de Produção fosse lá para ver a máquina, antes de fechar o negócio. Como ele não falava nada de Inglês, eu fui escalado para ir junto com o Gerente de Produção e o Chefe da Manutenção, que era quem realmente entendia de máquinas.
            Fizemos um voo até Londres, de lá fomos para Leeds, no Aeroporto de Bradford, onde nos esperava a secretária do dono da Reparadora de máquinas. Fomos até à Oficina de Reparos e após o almoço, fomos conhecer a máquina Kolbus de Capa Dura, numa Gráfica que estava comprando uma muito maior e por isso estava disponibilizando a antiga para comercialização.
            Lá na Gráfica, o Chefe da Manutenção, abriu sua caixa de ferramentas, foi para debaixo da máquina checando as partes mais importantes, para ver o seu funcionamento. Enquanto isto, fiquei conversando com o Gerente da Gráfica, pedindo mais explicações, de porque estavam vendendo a máquina,  e pedi para ver os produtos fabricados nela. Ele me levou a uma sala e me mostrou, principalmente Dicionários, feitos na máquina. Quando voltamos à Gráfica, eu me encostei na máquina, enquanto o nosso funcionário e o Gerente de Produção trocavam ideias, e eu puxei a capa de lona que protege a parte da aplicação de cola quente, e deparei-me com um bonito livro de Capa Dura. O Gerente me explicou que aquele foi o último livro produzido naquela máquina que já estava parada por mais de seis meses. Perguntei se podia ficar com o livro, ele disse que sim e ainda brincou, que seu eu gostasse de culinária, era um livro de receitas escolhidas só por gente “muito famosa”! Frisou bem o muito famosa! O título é “Recipes for Life”. Eu trouxe o livro comigo e após dar aquela olhada de gráfico, que lê só as orelhas, contracapa e dá uma passada de olhos na matéria, fiquei impressionado, pois tinha receitas da Lady Di, Príncipes, Princesas, artistas famosos como Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Brooke Shields, esportistas como Jackie Stewart, Chris Evert, políticos como George Bush, Ronald Reagan, Margareth Tatcher, Tony Blair e até o Mr. Bean, que dá uma receita que a cara dele: “cozinha o feijão, amassa bem para formar uma pasta e passa em duas fatias de pão torrado...” (não é a cara dele?). Então coloquei-o na minha estante principal no escritório, para que todos o vissem.
            Um dia foi lá nos visitar um Gerente de uma Editora e outras duas pessoas, clientes da Editora, que tinham encomendado a impressão de um livro para uma Seguradora presentear seus clientes. Como era um livro que foi editado em três línguas, com muitas fotos do Barroco Brasileiro, eles queriam acompanhar a impressão. Uma dessas pessoas, não sei se da Editora ou da Seguradora, viu o livro e ficou impressionado. Disse que conhecia o livro que teve uma edição limitada por uma ONG escocesa e que conhecia colecionadores que pagariam até trezentos dólares pelo livro. Perguntou se eu queria vender e até insistiu comigo. Mas pela minha posição na empresa, pelo relacionamento profissional daquele momento, nem pensei e disse que não.  Curiosamente ele ainda me ligou do Rio de Janeiro para dizer que falou com a pessoa que tinha interesse e que pagaria sim os trezentos dólares. E eu repeti que não tinha interesse. Guardei esse livro sempre com um carinho especial, até porque valia trezentos dólares...
            Um dia desses, um amigo me ligou para saber como conseguiria um livro de poesias de Paul McCartney, impresso na Inglaterra já há algum tempo. Eu entrei nestes sites de sebo internacional e encontrei o livro que meu amigo queria e também o  “Recipes for Life”, por trinta e um dólares. Veja a grana que eu perdi... Ou os colaboradores famosos perderam a fama ou as receitas são todas iguais a do Mr. Bean...





domingo, 27 de agosto de 2017

O Meu Pião

Nicanor de Freitas Filho

            Como já contei, minha infância foi muito pobre e eu gostava muito de brincar, então tinha que usar da criatividade para obter os “brinquedos”. Papagaio, ou pipa, eu conseguia “fabricando” para os outros meninos e cobrava em folhas de papel de seda. Pra isso eu tinha, desde pequeno, um canivete que quando o meu padrinho Tarcísio me deu, arredondou a ponta dele no esmeril, para não correr risco. Mas era um ótimo canivete, que mantinha o corte sempre afiado, pois era de aço inox mesmo! Apesar de usá-lo mais para fazer as varetas de bambu, com ele eu fazia quase tudo. Além de papagaio, gostava muito de bolinha de gude, que eu ganhava jogando a valer! Jogo de botão – e naquele tempo era de botão mesmo – que a gente ganhava ou arrancava das capas das tias e primas, ou então fazia com casca de coco, raspando no cimento. Finca, aro, hélice, estilingue, carretilha e outras coisas o padrinho Tarcísio fazia para mim. Outros brinquedos, como peteca, béte (ou taco), ioiô, bilboquê os amigos tinham e nós brincávamos juntos. Uma coisa eu não conseguia ter, e gostava muito, que era o pião. Mesmo não tendo, eu sabia como brincar e pegava na mão sem jogar no chão, fazia passar por cima dos fios de eletricidade, mas não tinha o meu pião. Em casa eu improvisava, jogando um vidro, que chamávamos de “tinteiro” porque era o vidro da tinta de molhar das marcas Sucuri, Borboleta ou Trevo, pelo formato. Quem tem mais de 65 anos sabe do que eu estou falando. Eu conseguia enrolar a fieira e fazer rodar aquele vidrinho no chão. Minha avó Dinha me pedia para rodar o vidro, para todas as pessoas que a visitavam, pois ela achava aquilo de uma criatividade ímpar!
            Na casa que eu morava, que era da minha avó, tinha um quintal grande com muitas frutas. Lembro-me de abacateiro, amoreira, mangueira, figueira, goiabeira, laranjeira, araçazeiro, bananeira, pé de fruta do conde, pessegueiro e muitas outras árvores, onde brincávamos quase o dia todo. Teve um ano, que minha Tia Suça – que também morava lá – recebeu uma proposta de vender toda a colheita dos dois abacateiros e assim chegou um caminhão na porta de casa e vários homens entraram e foram apanhando os abacates e jogando dentro de um caminhão. Estragaram tudo, pois colhiam e transportavam sem o menor cuidado, ficando o quintal cheio de folhas e estragaram todo o araçazeiro e a goiabeira, que ficavam mais perto dos abacateiros, além da roseira e do pé de jasmim que ficavam no caminho para a rua. Deixaram um rastro de destruição...lamentável!
            Depois que eles foram embora, fiquei lamentando o vandalismo que fizeram nas nossas frutas. A goiabeira foi quebrada, mas deve ter sido cortada com um facão, pois ficaram lá vários galhos e o tronquinho – ela não era grande – que deveria ter cerca de 7 ou 8 cm de diâmetro e aquele pedaço cortado era bastante “cônico”. Ficou bem no meio da parte mais larga, uma ponta, que parecia mais forte, uma espécie de miolo duro. Era um pedaço de madeira curioso, pois estava com aquele miolo no meio do tronco, que afinava bastante, na parte de baixo. Quando peguei aquele pedaço de madeira, olhei-o e vi ali uma “piorra”. Se eu cortasse a parte de baixo e a afinasse um pouco mais, até fazer uma ponta, poderia tentar fazer daquela parte que ficou no meio do lado mais grosso, o suporte para os dedos apoiarem para fazê-la rodar. Examinei bem, peguei o canivete de fazer varetas e comecei a burilar aquele pedaço de madeira. Diminuí a parte central e vi que a madeira era muito dura. Passei o fio do canivete no tanque de cimento, para afiá-lo e fui tentando cortar a parte de baixo, para ficar com uns 9 ou 10 cm de comprimento, para fazer minha piorra.
            Acredito que trabalhei o resto do dia tentando afunilar aquele pedaço de tronquinho de goiabeira. Como para construir os papagaios eu tinha muita paciência para fazer e alisar as varetas, com o canivete, também ali fui trabalhando com calma. Quando fui acertar a parte de cima, acho que cortei com força e arredondou a quina que eu queria deixar. Aí eu fui arredondando, arredondando e achei que aquilo estava mais parecido com um pião do que com uma piorra. A madeira era dura, machucava meus dedos, mas eu não desistia. Todos os dias eu pegava minha peça e trabalhava um pouco nela. Eu já tinha visto que dava para fazer o formato de um pião, mas de vez em quando eu errava e tinha que diminuir um pouco o diâmetro. Sinceramente, eu não sei quanto tempo eu fiquei brincando com aquele pedaço de madeira, tentando dar-lhe uma forma de pião. Talvez mais de um mês ou até dois.
            Um dia, quando já tinha conseguido fazer a “cabeça” do pião – onde amarra a fieira – comecei a pensar como eu faria a ponteira, que geralmente é parecida com uma ponta de um prego, mas lisinha, não muito fina. Depois de quebrar a cabeça e não surgir nenhuma ideia, resolvi levar para o padrinho Tarcísio ver se colocava uma ponta no meu pião. Ele elogiou, mas disse que precisava melhorar aquilo. Mandou que eu fosse no vizinho da oficina, que era uma oficina de reparo de móveis de madeira e pedisse para o Sr. José de Souza dois pedaços de lixas, uma mais grossa e uma mais fina. Pedi ao Sr. José de Souza e ele quis saber para que. Quando mostrei-lhe o pião ele disse que ia me ajudar. Prendeu e grampeou os pedaços de lixas num toco quadrado para eu “esfregar” o pião, que segundo ele seria mais fácil de segurar para trabalhar, e, me mostrou como fazer o serviço.
            Depois de machucar toda a mão, pois, ao esfregar, escapava e pegava na lixa, principalmente a parte de trás do polegar, não desisti, fui até conseguir um formato parecido com um pião. Aí, então, levei para o padrinho Tarcísio fazer a ponta.  Ele pegou a peça, examinou, disse que precisava de uns ajustes e conseguiu melhorar o formato do pião, com as lixas. Cortou a ponta da parte de baixo e pensou em bater um prego para fazer a ponteira. Mas me disse que iria rachar a madeira. Depois de muito quebrar a cabeça, resolveu pegar a furadeira, fez um furo ali para colocar o prego, mas aí teve uma outra ideia e em vez do prego, meteu ali um parafuso de madeira, para evitar que rachasse. Depois foi para o esmeril e fez a ponteira do pião, esmerilando a cabeça do parafuso, sem deixá-la muito fina, para poder rodar normalmente no chão. Pronto! Agora tinha o “MEU PIÃO!”

            Nota: nunca rodou normalmente. Ficou meio “cambeta”. Ele era mais usado para servir de começo de brincadeira, no meio da roda... Guardei esse pião junto com meu time de botão, bolinhas de gude e uma finca, quando fui para Muzambinho, numa caixa, no fundo de um guarda-roupa. Quando voltei e fui procurar meus brinquedos todos tinham sumido...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Promessas

Nicanor de Freitas Filho
Lembro que morava numa casa não muito grande, não muito velha, simples. Na entrada tinha um portãozinho, um muro baixo, e entre o muro e a casa – que ficava mais à direita – um jardim bem cuidado, onde se destacava um pé de dália, daquelas grandes, que quando atingiam o auge, pendiam para o lado.
A casa era da minha avó Dinha, ou Dona Clorinda Palhares Cardozo. Morava nessa casa, a Dinha, minha Tia Suça – irmã da minha Mãe – que era solteira e trabalhava como Caixa em um Armazém e nós. Não me lembro em que ano, ela foi convidada a dar umas aulas numa fazenda perto de Santa Juliana e ficou muito amiga das filhas do fazendeiro, que a tinha contratado. Elas foram visitar a Tia Suça várias vezes e eram muito simpáticas. Lembro-me bem delas.
A Mãe delas, contava que quando se casou, com o Fazendeiro, num início de ano, foram passar a Lua de Mel em Poços de Caldas, no carro do Fazendeiro. Sofreram um acidente na estrada, no dia 6 de janeiro e ela teve o útero perfurado. Não foi tão grave, mas o médico disse que ela poderia não conseguir engravidar, pois o útero estava razoavelmente danificado. Ela então conta que fez a promessa de que, se engravidasse, ela colocaria os nomes dos Reis Magos, nos filhos, por causa da data de 6 de janeiro. Quando nasceu a primeira filha, ela então colocou o nome de Gasparina – feminino de Gaspar – e era um nome até usado. Eu mesmo conheci mais de uma Gasparina. Quando nasceu a segunda filha, ela já teve que improvisar: Belchiolina – feminino de  Belchior – que praticamente não é usado. Mas vá lá! Quando nasceu a terceira filha, não teve alternativa, feminalizou o nome de Baltazar e chamou-a Baltazarina! 
Nós, crianças, achávamos engraçadíssimo os nomes delas: Gasparina, Belchiolina e Baltazarina... Ríamos muito. Se, pelo menos, fosse nos dias de hoje, que chamam todas as meninas pela primeira sílaba, ainda poderia quebrar o galho: “Gá”, “Bel” e “Bá”, mas não. Naquela época eram Gasparina, Belchiolina e Baltazarina... 
Fomos morar em Uberaba onde ficamos quase um ano, voltamos para Araxá, e, pouco mais de um ano depois, meu pai conseguiu ser Corretor de Seguros da Seguradora Minas Brasil, na cidadezinha de Veríssimo, no final de 1952. Eu estava no segundo ano do Grupo Escolar. Fomos morar, se me lembro bem, na Rua Presidente Vargas, 348. Em frente à nossa casa morava Dona Sinhana (não sei se é assim que se escreve), viúva que tinha três filhas, cujos nomes eram: Fé, Esperança e Caridade.
Na frente da casa dela, o que seria o jardim da casa, tinha um pé de cará-do-ar, que é uma espécie de planta trepadeira, cujo fruto cozido e amassado com açúcar é uma sobremesa deliciosa. Pelo menos achávamos, pois nossas opções eram poucas. Então íamos quase todos os dias pedir para Dona Sinhana uns carás-do-ar (e nós falávamos “caraduá”) para nossa sobremesa... E ela sempre com muito carinho, nos ajudava a apanhar os carás-do-ar para a Mamãe cozinhar.
Minha Mãe contava que um dia perguntou para ela, o porquê dos nomes das filhas, e ela explicou que quando se casou, seu marido tinha tido sífilis e o médico teria dito que ele não poderia gerar filhos, pois tinha-se tornado estéril. Naquela época se casava para ter filhos. Então, ela que era muito católica, fez a promessa, que se o marido se recuperasse ela poria os nomes de Fé, Esperança e Caridade nas filhas. Minha Mãe admirou muito a “fé” daquela senhora, que não só conseguiu realizar seu sonho, como cumpriu sua promessa. Mas lembrando-se da Gasparina, Belchiolina e Baltazarina, Mamãe perguntou a ela, como faria se tivesse nascido três filhos. Ela respondeu de pronto: “...seriam João da Fé, José ou Antônio da Esperança e Pedro ou Paulo da Caridade!” Eu nunca me esqueci dessa história que minha Mãe contava, mesmo porque achava de muita criatividade a resposta dela, para o caso de nascerem homens, em vez de mulheres!


Esta é a casa que moramos no Veríssimo. Só foram trocadas as janelas e construído um segundo murro, mais alto. Esta foto é de 2005 quando fui passear lá. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Meu Primeiro Par de Chuteiras

Nicanor de Freitas Filho

            A Escola Agrotécnica de Muzambinho, nos anos que lá estudei, fornecia aos alunos dois conjuntos de roupas, que não vou chamar de uniforme, porque na verdade eram duas calças e duas camisas “Far West” – pra quem não sabe a Far West é precursora do jeans atual – um par de botinas mateira ou brogó, como alguns diziam, além da roupa de cama, tudo numerado e eram lavados pela Lavanderia da Escola. Quando saíamos de férias entregávamos tudo na rouparia, inclusive as botinas, que deveriam estar limpas, porque poderia ir para outro aluno no ano seguinte.
            Minha família era muito pobre e minha Mãe só podia me enviar Cr$ 100,00 por mês, cuja nota que eu recebia dentro de um envelope transparente, para aparecer o dinheiro e não ter como roubarem. Era igualzinho hoje! Não me lembro se foi no final do ano de 1958 ou 1959, na hora de entregar minha botina, não tinha o que calçar. Minha conguinha,com a qual eu tinha ido, estragou e não tinha dinheiro para comprar uma nova, muito menos um par de sapatos.  Fiquei numa situação complicada, mas tudo naquela Escola tinha solução. Pois tínhamos Amigos!
            Quando eu jogava bola – e era um perna de pau – jogava com chuteiras emprestadas por algum dos colegas. O que mais gentilmente me emprestava era o Régis. A chuteira estava velhinha, mas ainda assim jogava com ela, pois era em campo de terra batida mesmo! Ela já estava quase sem as travas, toda esfolada...
            Então tive uma ideia! Propus ao Régis, que me vendesse a chuteira velha por CR$ 5,00, que era o que eu tinha. Ele, não sei se de dó, ou se ia mesmo jogá-la fora, me vendeu pelos CR$ 5,00 que eu tinha. Arranquei as travas que restavam e consegui um par de cadarços pretos, que a fez virar um verdadeiro “sapato”, com o qual eu viajei, que foi ótimo na minha viagem para casa!
            Chegando em Araxá, minha Mãe viu aquilo, riu, elogiou pela “criatividade” e falou para eu levá-la na Sapataria do Sr. Elpídio, velho amigo e sapateiro que nos atendia, ele certamente daria um bom tratamento nela. De fato, ele recolocou as travas, passou aquela tinta preta milagrosa, que deixou a chuteira novinha. Ainda a usei por muito tempo. Em 1960 cheguei a jogar no Segundo Time da Escola e várias vezes a usei e sempre achava muito boa. Também foi a única que eu tive, pois uns dois anos depois que comecei a usar óculos, com mais de dois graus e meio de miopia, em 1958, parei com o futebol e passei a me dedicar mais ao Tênis de Mesa e Xadrez.
            Não posso deixar de contar que minha maior façanha, como jogador de futebol, foi ter participado do Time do Grená, em 1960, na Escola Agrotécnica de Muzambinho, no campeonato interno de 6 times (Grená, Branco, Amarelo, Vermelho, Verde e Azul) e ter sido Campeão, tendo o direito de fazer o jogo contra a Seleção do Resto, no dia da minha formatura, que foi parte das festividades oficiais, onde recebemos as faixas de Campeões de 1960, das respectivas madrinhas.




        Em pé da esquerda para direita:  Montipó (Mário Rogeri), Baurú, Nicanor, João Lúcio, Zé Braz (Daniel Camilo), Ildeu, Tião Canjica. Agachados: Canco Mole (Luis Alcino), Celsinho (Celso Pereira de Almeida), Oswaldo Tiveron, Banterli, Geraldo e Josmar (Paloma). (Foto de 08/12/1960)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Primeira lembrança da Política

Nicanor de Freitas Filho

            Em 1.950, fomos morar em Uberaba, MG, na Rua Padre Zeferino, não me lembro o número, mas era em frente a uma venda/bar, e mais a esquerda ficava a oficina de acumuladores (baterias) do Romeu Moreno e seu irmão.
            Lembro-me pouca coisa daquela época, mas algumas são muito importantes, como dos carros, motos e bicicletas, que passavam na rua, jogando cédulas eleitorais, para propaganda dos políticos, candidatos à Presidência da República. Na verdade, só me lembro de ver cédulas de Getúlio Dorneles Vargas e Eduardo Gomes. Geralmente tinham dois tipos de cédulas, umas num papel tipo jornal, que usávamos para fazer aviõezinhos e outras em papel melhor, branco, que usávamos para fazer canudos, aqueles de soprar. É que naquela época, a eleição era feita em cédulas de papel, que eram colocadas dentro do envelope, que iam para as urnas. Não me lembro bem, mas acho que se votava para Presidência e Vice-presidência em separado. Então se tinha muitas cédulas. Dava para brincar muito. Eu estava então, com 6 anos e ainda não estudava.
            Um fato marcante foi que, às vésperas das tais eleições, o Dr. Getúlio, que então era Senador, foi fazer um comício em Uberaba, cujo prefeito era o Dr. Boulanger Pucci, que foi ao Aeroporto para recepcioná-lo. Parecia uma festa em Uberaba, pois o Dr. Getúlio tinha “governado” o Brasil por 15 anos, de 1.930 a 1.945, na verdade uma Ditadura – muito dura – mas ele era ainda um “mito” político. Lembro-me então, que meu Pai chegou em casa, mandou minha Mãe colocar roupa de domingo em nós – lembro-me de minha Mãe grávida, com uma barriga enorme – e fomos para o comício na Pça. Rui Barbosa. Estávamos, acredito que na Rua do Comércio, com a praça lotada, que não conseguíamos chegar lá, brincando e, provavelmente, chupando bala Chita, ou tomando picolé de groselha, que eram as coisas baratas que podíamos ter. Meu Pai se afastou um pouco com alguns companheiros, talvez o Tio Santo também e ficamos ali no meio daquele povão, com muito calor, que não é novidade em Uberaba. De repente, meu Pai chegou correndo pegou em nossas mãos e disse, vamos embora que deram um tiro no Prefeito Boulanger Pucci. Isto aqui está perigoso! E fomos embora, sem festa e com medo. (momento marcante)
            Pesquisando agora na Internet, descobri que tal fato se deu no dia 10 de setembro de 1950. Meu irmão Luiz nasceu no dia 24 de setembro de 1950. Imaginem como deveria estar minha Mãe, quatorze dias antes de dar à luz. Esta é a primeira lembrança que tenho da política brasileira.
            Resultado é que o Dr. Getúlio ganhou as eleições de Eduardo Gomes e voltou a governar o Brasil até o dia 24 de agosto de 1954, dia em que se suicidou. Nesse período, criou duas das mais importantes estatais para o Brasil, a Petrobras e a Eletrobras, mas levou o Brasil pelo caminho “nacionalista-estadista” do mal sentido, quase que comunista, principalmente quando convidou João Goulart – o Jango – para o Ministério do Trabalho, que como primeiro ato, propôs o aumento salarial de 100%, o que irritou os empresários e principalmente ao Deputado da UDN Sr. Carlos Lacerda, que sem dúvida, foi o mais duro adversário de Getúlio.
            Getúlio, foi o mais populista dos Presidentes do Brasil, antes do Lula. Já na época de sua Ditadura, tinha criado muitos benefícios aos trabalhadores, a CLT, os sindicatos, com toda estrutura financeira e sempre procurava um jeito de ganhar o “povão”. Por isso ele arranjava muita “encrenca” com a classe empresarial. Carlos Lacerda fazia uma pressão muita dura, como deputado que era e conseguiu angariar uma antipatia, muito além da política, de Getúlio Vargas. Pois este, além de populista, era sabido que fazia muitas coisas erradas, que naquela época, ficava tudo escondido.  Chegou ao ponto de o Deputado Carlos Lacerda sofrer um atentado, cujo executor foi o Gregório, o principal guarda-costas de Getúlio. Com isso os políticos começaram a pressioná-lo para renunciar, para que o Tribunal Superior não tivesse o constrangimento de julgá-lo, pois todos sabiam de sua participação, ou no mínimo, seu conhecimento dos fatos. Ele foi ficando acuado e quando foi no dia 24 de agosto de 1954, suicidou-se, com um tiro no peito. De qualquer forma foi um trauma muito grande para a nação, creio que até para Carlos Lacerda.
            Isto é o pouco que me lembro do primeiro Presidente da República do Brasil, que “me presidiu”. Sei que assumiu o Vice-presidente, Café Filho, que também não ficou até o fim do mandato. No Brasil sempre foi assim!!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cuiabá, fui e voltei

Nicanor de Freitas Filho

            Fui morar em Cuiabá, fiquei lá dois anos, mas o problema econômico do Brasil, no Governo Sarney foi terrível, principalmente para o ramo em que fui trabalhar: imobiliário! Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Mailson, planos e mais planos econômicos, foram todos lastimáveis. Acabaram com o Brasil. Tive que voltar para São Paulo. Vim trabalhar numa fábrica de material de artigos de festas, que era ligada ao Palácio dos Enfeites, famosa rede de lojas desses artigos. Vim para trabalhar na exportação dos produtos.
            A fábrica, que era mais conhecida como “Reizinho”, ficava em Itaquaquecetuba, um pouco afastada da cidade, então era melhor usar o refeitório da fábrica, mesmo porque, naquele tempo não tinha bons restaurantes por lá. Mas acontece que um dos irmãos, proprietários da fábrica, tinha comprado um terreno colado à fábrica, onde fez, digamos assim, uma casa de campo, que tinha um salão/bar, com mesa de sinuca profissional e tudo muito próprio para se divertir. Então ele acertou com a empresa que servia a comida para os funcionários, para servir lá na casa dele, para alguns privilegiados. Assim ele, o irmão, sobrinho, eu e outros funcionários, da Moóca que iam à fábrica e também alguns clientes, fornecedores ou gerentes de bancos eram convidados a almoçar lá.
            O dono da casa, Sr. Jayme, é muito espirituoso e “gozador” e todas as vezes que ia um convidado novo almoçar conosco, era certo que ele preparava a piada e sempre acontecia, pois ele provocava o ambiente para isto. Ele adorava uma picanha ou um porco à pururuca, mas tinha o colesterol muito elevado e tomava remédio. Então dizia que se já tomava remédio para o colesterol, podia comer picanha. Sempre ele pegava a bandeja de salada e oferecia a todos e ia passando. Voltava nele e ele insistia com mais alguém, mas não se servia de salada até que uma hora o convidado perguntava: “O senhor não come salada, Sr. Jayme?” Na hora ele respondia: “Não, tornei-me ecológico agora, não como nada verde e, se tiver algum bicho que come o verde, eu como o bicho para ele não comer mais o verde”.
            Como era muito difícil exportar aqueles produtos, devido ao volume (uma tonelada chegava a ter dez ou doze metros cúbicos) fui gerenciar uma fábrica de papel higiênico em Poá, que depois mudou para Diadema. Fiquei lá por dois anos, mas não era meu negócio. Queria exportação! Meu amigo Sérgio Moreira, hoje vivendo no Chile, que foi quem me indicou para a Reizinho, trabalhava na Propasa, fábrica de cadernos, que tinha participado do Consórcio de Exportadores de Cadernos que eu gerenciei antes de ir para Cuiabá. Ele estava deixando a Gerência de Exportação de Cadernos para ir para a Exportação de uma fábrica de papel, que é o que ele faz até hoje, só que agora lá no Chile. Então fui para o lugar dele, na Propasa, que eu já conhecia por causa do Consórcio de Exportação e era amigo dos donos, principalmente do Sr. Anis e do Anis Filho, que foi quem me contratou.
            No segundo dia que eu estava trabalhando na Propasa, o Sr. Anis mandou  me chamar à sala dele. Disse-me: “ Oh Freitas, que bom que agora estamos juntos. Será muito bom trabalhar com você!” Eu fiquei todo feliz e começamos um papo, sobre mercado, sobre produtos, sobre exportação, sobre minha ida para Cuiabá, quando então eu falei para ele: “Se arrependimento matasse eu já teria morrido! Não sei o que fui fazer em Cuiabá!” Imediatamente ele me interrompeu e com toda sua vivência e experiência me disse: “Nunca diga que se arrependeu de algo que você fez. A gente só se arrepende do que deixou de fazer! Pense bem, você poderia estar sentado aqui na minha frente, como está agora e me dizer: ‘...pois é Sr. Anis, há seis anos atrás, eu tive uma excelente oportunidade, quando fui convidado a ir para Cuiabá e não fui, agora estou aqui, de novo, exportando cadernos...Pense no quanto de experiência você adquiriu lá...’” (Momento realmente marcante).
            Aprendi com ele nessa mensagem e nunca mais me arrependi de nada que fiz, tirando proveito do que aprendi com os erros. E aprendo até hoje!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Como os Juízes te assaltam...

Este vídeo, foi copiado do Blog Vespeiro, de Fernão Lara Mesquita, mas como ele incentiva a divulgar, estou postando aqui no meu blog também... Assistam e por favor, preparem-se para não dar vômitos!


sábado, 8 de julho de 2017

Delícia de Pudim

Nicanor de Freitas Filho
           
            Estudou comigo na Escola Agrotécnica de Muzambinho, um araxaense que quase todos os conterrâneos devem tê-lo conhecido. Não só por ter sido um dos fundadores da Academia Araxaense de Letras, mas também foi Vereador, era um político culto além de Poeta e um excelente violonista. Foi ele quem me introduziu no mundo do violão. Aprendi com ele os primeiros acordes e depois muitos outros. Éramos muito amigos, formamos chapa para eleição da Diretoria do Grêmio da Escola e nas férias, eu frequentava a casa dele, que era ali na Rua Cônego Cassiano, logo no primeiro quarteirão, onde tinha um “larguinho”. A casa tinha um terreiro enorme, com muitas frutas. Estou falando do Gilberto Augusto Silva, filho de Dona Maria Aparecida Montandon Silva.
            Acredito que Dona Aparecida, teve dez filhos, sendo quatro mulheres e seis homens. Creio que o Gilberto era o penúltimo. Com certeza tinha três irmãs que eram mais velhas que ele. Dona Aparecida, sua Mãe, era muito espirituosa e brincalhona, e estava sempre alegre. Tenho a lembrança dela sempre sorrindo e brincando. Aí pelo final da década de 50, as três filhas já estavam namorando firme e acho que uma delas já estava até noiva. Ela então, sugeriu às filhas que, para os futuros genros se conhecerem melhor, ela faria um almoço e convidaria os três genros.
            E assim se fez. Ela preparou uma bela macarronada no domingo e convidou os futuros genros para o lauto almoço. Foram muito bem recebidos, ela, como já expliquei, sempre muito alegre e divertida. Sentou-se à cabeceira da mesa e fez questão de servir, não só aos futuros genros como as filhas também. Não estou muito certo, mas me parece que ela mandou os outros filhos almoçarem na casa de tios ou de outros parentes, para não estarem lá e não perturbarem a recepção, muito bem planejada, com cuidado e carinho.
            E ela os deixou muito à vontade, puxando os assuntos – ela era muito culta e  instruída – para que eles não ficarem tímidos, sem saber o que se poderia conversar. Enfim, ela manteve o controle total do evento mostrando-se uma anfitriã muito receptiva a agradável, para que eles ficassem sempre na zona de conforto.
            Terminada primeira etapa, isto é, o prato principal, ela foi buscar a sobremesa, que era um lindo pudim, grande para se comer à vontade, mas sem calda. Mas estava muito vistoso. Ela, novamente fez questão de servir a cada um dos futuros genros um generoso pedaço do pudim.  Cada um comeu seu pedaço e ela, perguntou se estava bom. Todos responderam que sim. Então ela educadamente ofereceu mais. O primeiro agradeceu, disse que estava satisfeito e ela sem cerimônia, lhe disse: “Estou vendo que você não gostou nada! Só falou que gostou para me agradar!” Ele logo disse que não, que estava muito gostoso e acabou aceitando mais um pedaço. Os outros dois percebendo que ela não os perdoaria, nem esperaram que ela fizesse o “mise en scène” e já aceitaram outro pedaço assim que ela ofereceu. E, segundo ela contava, teve um que ainda comeu mais um terceiro pedacinho, pela insistência dela.
            Terminada a sobremesa, ela se levantou e disse: “Vocês homens e namorados são mesmos uns fracos, fingidos e bajuladores (só faltou chamá-los de ‘bundões’). Eu derreti farinha de milho no café coloquei na forma de pudim e nem caldo eu fiz, para não adoçar, e vocês comeram e repetiram essa ‘porcaria’ de café com farinha de milho, só para me agradar! Seus puxa-sacos!” E caiu na risada, deixando-os constrangidos e extrovertidos ao mesmo tempo! Mas ela completava o causo dizendo que foi muito bom, porque eles se tornaram amigos dela de verdade, depois da “pegadinha” do pudim...

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ida para Cuiabá

Nicanor de Freitas Filho
            Outro dia me perguntaram por que eu fui morar em Cuiabá. Vou tentar explicar, sem citar nomes para não constranger ninguém.
            Trabalhei numa empresa por dez anos. Era Gerente de Exportação de uma das Unidades. A empresa tinha várias unidades. Quando começamos exportar os produtos dessa Unidade que eu trabalhava, já existia um Departamento de Comércio Exterior, que cuidava de toda parte administrativa e financeira – exportação e importação – da empresa toda. Analisava, Cartas de Crédito, fechava câmbio, conferia documentação, fazia toda a parte de Faturas Pro Forma, tratava também das importações, de maquinário e peças e até alguma matéria prima, enfim, tudo que chamamos de parte burocrática. Era gerenciado por uma senhora muito competente e que já estava na empresa há muitos anos. Meu Departamento cuidava só da área Comercial e Pós Venda. Isso era no final dos anos 70 e começo dos anos 80 e o Brasil vivia uma crise danada, mas o Governo Militar incentivava a Exportação. Logo outra Unidade começou a exportar produtos específicos dela e criou-se outro Departamento Comercial de Exportação. Mas a documentação também era feita pelo Departamento de Comércio Exterior.
            Nessa época foi contratado para a Superintendência do Grupo, um “Gringo”, que não falava muito bem o português e nem entendia muito da administração brasileira. Eu, teoricamente, não tinha nada a ver com ele, pois abaixo dele tinha um Diretor da Unidade, abaixo do Diretor um Gerente Geral de Marketing e Vendas, ao qual eu era subordinado. Mas não é que depois de uns tempos esse gringo vinha dar ordens diretamente para mim? Eu nunca gostei disso, e antes de tomar qualquer providência informava ao Gerente Geral ou ao Diretor da Unidade. Mas ele adorava “me encher o saco”. Fez-me fazer uma viagem ao Paraguai, quando eu estava de licença médica, com uma vista só, em 1983, por ter operado de catarata, com problema no olho direito, que ficava tapado, em decorrência de uma grande hemorragia, para fazer uma cobrança – que todos sabíamos – o problema era do Paraguai que não liberava os pagamentos ao exterior. Mesmo assim, interrompi a licença e fui. Não adiantou nada!
            Um dia ele reuniu os três gerentes dos departamentos ligados ao Comércio Exterior e disse que estava os unindo. Muito bom! Precisava mesmo ser unificado. E nós até entendíamos que a Gerente do Depto. de Comércio Exterior unificado, deveria ser a senhora que era  a mais velha e mais antiga de casa, conhecendo muito mais que nós.  Mas ele disse que não! Ela iria para Secretaria da Presidência, ou melhor, de toda Diretoria. Muito bem, então quem vai ser o Gerente? Não precisa definir, vocês se entendem. Afinal são só 14 funcionários e vocês conhecem todos e conhecem o que tem que ser feito, além de serem amigos! Tá bom ou quer mais?
            Na verdade eu sempre me dei muito bem com o Gerente Comercial da outra Unidade e fazíamos muitas coisas em conjunto. Mas assim, sem ter um responsável? Não! Não poderia dar certo. A partir daquele momento, fui conversar com meu Diretor – estava sem o Gerente Geral de Marketing – e me posicionei contrário àquela atitude estranha e totalmente fora dos padrões da empresa e da época. Os produtos da Unidade que eu trabalhava, estavam começando a cair no mercado internacional e mesmo no nacional, tanto que depois de quatro ou cinco anos a fábrica desses produtos foi vendida. Mas o fato é que eu passei a não me sentir bem, como me senti por dez anos. Era uma posição esdrúxula, sem chance de discutir o problema, pois meu Diretor era muito de por panos quentes e levar do jeito “maneiro” até ter uma solução.  Acredito que ainda fiquei por quase um ano levando a coisa assim, na esperança de resolver. Mas nada acontecia.
            Aí surgiu um motivo maior para me desestimular. O tal superintendente contratou um assessor para área de organização e métodos, que, entendo, foi instruído a me encher o saco pra valer. Pois ele só queria falar comigo, não tratava praticamente nada com o outro Gerente, meu colega.  Aí, pedi para meu Diretor me demitir, pois não queria ficar sem sacar o tal FGTS de dez anos. Ele disse que ia ver. Demorou quase dois meses e nada. Então cobrei e ele me disse que não tinha motivo para me demitir e demissão não era assim tão fácil, como ele explicaria à Diretoria, me dispensar sem motivo? Eu disse para ele que ia dar um motivo. Ele, me conhecendo bem, me disse para ir com calma. Na primeira vez que o assessor veio à minha sala para me “dar instruções” sobre novas normas eu simplesmente mandei-o para um lugar que ninguém vai, mas a gente manda, para demonstrar raiva ou desrespeito. Disse que estava muito ocupado e era para ir falar com o outro Gerente, pois eu cuidava só da parte comercial. Ele ficou sem reação, e, claro que foi falar com o superintendente.  Este, que provavelmente já esperava algo assim, foi direto no meu Diretor reclamar da minha “falta de educação”. No que ele aproveitou e disse, segundo me falou depois: “É o Freitas anda meio nervoso mesmo. Acho que podemos tocar o Departamento sem ele.” Mesmo porque, meu colega e eu, tínhamos preparado tudo para minha saída.
            Fazia tempo que tinha uns amigos de Cuiabá que haviam me convidado para administração de duas Construtoras e uma Imobiliária, pois ambos tinham lá em Cuiabá esse Grupo, para justificar residirem em Cuiabá, pois o que tinham mesmo para ganhar dinheiro eram suas fazendas. Uma delas com oitenta mil pés de seringueira.
            Para prestigiar meu amigo Valdemar Coimbra – colega de Muzambinho, do qual não tinha notícias há mais de 57 anos e descobri agora que está morando em Jataí – vou contar um pedacinho da minha viagem para Cuiabá, que se deu no dia 18 de maio de 1987 e tive que ir sozinho, pois minha filha estava no terceiro ano do ensino médio e não tinha como transferi-la no meio do semestre. Eu tinha um carro VW Gol BX cinza. O mais pé de boi que já tive. Para se ter uma ideia, tinha minha mala grande, para viagens internacionais que não coube no porta mala. Teve que ir no banco traseiro. Planejei sair pela manhã, para e almoçar na casa de meu irmão em Frutal-MG (500 km), descansar um pouco e dormir em Jataí-GO (mais 500 km). Tinha que dormir bem para enfrentar no dia seguinte os 700 km até Cuiabá. Correu tudo bem. Fiquei um pouco mais do que queria em Frutal, batendo papo com os familiares, e rumei para Jataí. Ficou escuro e eu não gosto de dirigir à noite, pois uso lentes de mais de 10º por causa da cirurgia de catarata que fiz, na época que ainda não se fazia implante de cristalino. Já chegando em Jataí, por volta das 20:30 h, sozinho no carro, pouco movimento na estrada, quando avistei as luzes de Jataí de cima de um morro. Nisso, iniciei uma descida e eu já fazendo as contas da hora que teria que levantar no dia seguinte, quando, na descida, sumiu a cidade da minha vista. Pensei comigo mesmo: deve ser um morro bem alto para tapar assim toda a cidade, que não consigo ver nada. Sumiu tudo. Ficou tudo muito escuro. Como estava com faróis altos, não tinha problema. Toquei em frente. A cidade não aparecia mais na minha área de visão. De repente vi que cheguei na cidade mas estava tudo escuro do mesmo jeito que quando vinha pela estrada. Verifiquei que já estava em uma avenida e vi dois senhores numa esquina. Parei e perguntei o que estava acontecendo. Um deles, educadamente, me respondeu que era um “apagão”, mas também não sabiam do que se tratava. Então perguntei por um hotel e me disseram que naquela mesma avenida três, quarteirões adiante, tinha o Hotel Rio Claro. E foi lá que fiquei. Tomei banho frio, por falta de eletricidade, à luz de velas, lembrando-me dos chuveiros das Escolas Agrotécnicas, sempre gelados! Mas logo depois do banho, voltou a eletricidade e pude descer para jantar. No dia seguinte levantei cedo e me fui, rumo a Cuiabá, onde morei por dois anos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Meu Curso Clássico

No dia que postei “Vestibular para Economia” recebi, por e-mail, o seguinte causo do Dr. José Geraldo Filomeno, Promotor aposentado, que tive o prazer de conhecer durante uma viagem em 2014, contando algo parecido. Aliás, nós que nascemos nos anos 40/50, praticamente passamos por tudo isto, de modo muito parecido.
            Curiosamente, vocês vão ver que nos meus causos, já contei muito sobre minha vinda para São Paulo, em março de 1964, para fazer cursinho – no caso para Agronomia – mas acabei fazendo mesmo Economia. Curiosamente, consegui tirar minha primeira Carteira Profissional no dia 19 de março de 1964, que foi o dia da maior manifestação contra o Governo de Jango Goulart, aqui em São Paulo, que chamaram de “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” e dizem que participaram cerca de um milhão de pessoas, que foram da Praça da República à Praça da Sé. No dia 31 de março houve a “revolução”, o que atrasou meu registro na Carteira Profissional, que só aconteceu com data de 1º de maio de 1964 (acreditem, o primeiro registro na minha CP é do Dia do Trabalho).
            Mas leiam o causo dele que é realmente muito curioso:

Meu Curso Clássico
José Geraldo Filomeno
            “Minha história é parecida. Como odiava matemática, recusei-me a fazer o Curso Científico lá na minha terra, Mogi Mirim. Isto porque o Colégio Estadual somente disponibilizava esse curso médio, além do Normal. Curso Normal, naquela época era praticamente destinado às moças que queriam ser Professoras.
            Meu pai, então, foi falar com o diretor que exigiu, no mínimo, 15 pretendentes para criar o Curso Clássico. Mas, além de mim, somente conseguiu mais 4 pretendentes. Resultado: fomos nós --- três rapazes e duas moças ---, estudar em Itapira, distante 16 quilômetros, mas naquela época as estradas não eram muito boas! Saíamos de madrugada (1962) num velho “carro de praça” (táxi era para cidade grande!) um Ford 1946, e voltávamos de ônibus depois das aulas, também num Colégio Público. As moças não aguentaram nem dois meses e voltaram para Mogi Mirim para o Curso Normal. Um dos meus amigos faleceu durante as férias de janeiro/fevereiro, em 1963, num acidente de carro, o outro repetiu de ano, e então fiquei sozinho para o 2º ano, viajando diariamente.
            No 3º ano, já em 1964, foi que meus pais me mandaram para S. Paulo para fazer o Cursinho Castelões também em conjunto (na R. São Bento). Nessa época fui morar no apartamento de uma tia, irmã de meu pai, professora primária, no bairro da Aclimação. No dia 31 de março, à noite, meu pai ligou mandando que eu voltasse imediatamente para Mogi Mirim, porque ele fora informado de que havia uma “revolução” em curso, e ele e minha mãe ficaram muito preocupados. Peguei o “Cometão” (linha São Paulo/Poços de Caldas) no dia seguinte, 1º de abril, aliás, véspera do meu aniversário, e no pedágio, perto de Jundiaí nosso ônibus foi parado por um destacamento do exército que pediu documentos para todos os passageiros. “Molecão” então com 16 para 17 anos, não tinha atinado com a situação, e cheguei em Mogi Mirim na hora do almoço, para alívio dos meus pais. Por “ordem” paterna, somente retornei a São Paulo 15 dias depois, quando, segundo o velho, as coisas estavam “mais calmas”.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Abacate e Banana

Hoje, 27/06/2017, faz 6 anos que fiz a primeira postagem nesse meu Blog. Então, não poderia deixar de postar algo. Gostaria mesmo de “meter o pau” na Datafolha, ou “PataTolha”, como gosto de escrever, pois, ontem, às vésperas do Dr. Sérgio Moro dar a sentença do Lula, eles soltaram uma “pesquisa” (que só eles sabem como foi feita e porque)dando como resultado que o Dr. Moro teria 44% de votos num segundo turno e o Lula 42%. Isto para justificar a condenação, que tem que vir, como uma forma de evitar a candidatura do apedeuta. Por pura coincidência, a "Narizinho" soltou uma nota dizendo que, se o Lula não participar das eleições de 2018, será uma fraude! Pasmem!!
            Mas vou ficar nos meus causos mesmo!

Abacate e Banana
Nicanor de Freitas Filho

            Depois de entrar na Faculdade, como contei, morava na casa da Aurora e Zé Pedro, meus primos, e passei a ter muito contato com outros primos, a Glória e o Vilaça. Frequentava a casa deles e vários finais de semana ia visitá-los e eles me levavam para passear num Clube em São Bernardo. Foi ele quem me convidou para ir trabalhar na SPI – Sociedade Paulista de Investimento Crédito e Financiamento, uma Financeira que ficava na Rua Major Sertório, entre a Rua Rego Freitas e a Bento Freitas. O convite deu-se porque eu já trabalhava em Banco e tinha alguma experiência em Contabilidade. Tinha outras empresas no Grupo, mas na Financeira eram o Vilaça que era o Gerente, o Carlos Onodera que era o Contador e eu que era Auxiliar de Tudo. Aprendi muito com o Vilaça e com o Carlos.
            O Carlos morava numa pensão na própria Rua Major Sertório, a uma quadra da Financeira e me incentivou a me mudar para pensão também. O dono da Pensão era um húngaro, que o chamávamos de Seu Sandro, mas o nome húngaro dele era Sándor. E consegui alugar um quarto com apenas duas camas, porque tinha lá quartos com até quatro camas. O Carlos, como era mais rico, pagava dois alugueis e tinha um quarto só para ele. Lá era só para morar. Não servia refeições, como na pensão que morei no Butantã, quando vim para São Paulo e trabalhava na Cooperativa Agrícola de Cotia em Pinheiros. O Seu Sandro nos indicava uma pensão que só servia almoço, na Rua Amaral Gurgel.
            Eu estudei com um descendente de húngaro em Pinhal, o Ferenc Gyula Kleinmeyer, que nós o chamávamos de Púskas, por causa do famoso jogador do Real Madrid, cujo primeiro nome também é Ferenc. Um dia eu estava chegando à pensão, quando dei de cara com o Púskas, cujo pai era muito amigo do Seu Sandro e ele tinha lá na pensão, um outro amigo, também húngaro, cujo nome era Andris, mas que chamávamos de André. Aí, fomos almoçar juntos o André, Púskas e eu. Lá conversando o Púskas me contou a seguinte história:
            “O André, veio sozinho para o Brasil e foi morar numa outra pensão na Moóca. Falava muito mal o português mas se virava. Quando ele descobriu a pensão do Seu Sandro, ele se mudou e passou a almoçar na pensão da Rua Amaral Gurgel. Um dia serviram uma sobremesa que era abacate batido com leite condensado. Ele perguntou o que era e lhe informaram. Ele não quis comer. Então lhe ofereceram banana, que ele também não quis. Esta cena, de recusar banana e abacate, se repetiu várias vezes, até que um dia a dona da pensão ficou brava com ele e perguntou porque ele não aceitava a sobremesa. Ele contou que lá na pensão da Moóca também não tinha refeições. Então, ele com pouco dinheiro, comprava frutas para o jantar. Um dia ele passou na banca de frutas e viu uma bela fruta verde, que lhe informaram que chamava abacate. Ele comprou dois e levou para a pensão. Descascou, igual se descasca laranja, tentou a comer. Os abacates ainda estavam verdes. É obvio que deve ter sido realmente horrível. Ele nunca mais quis nem chegar perto de abacate!
            E as bananas que ela servia eram bananas nanicas, daquelas que,quando maduras, ficam pintadinhas. Ele achava que aquelas pintas pretas eram de bichos e morria de nojo! Então, quando ele encontrou o Púskas e o viu comendo tanto uma quanto outra, questionou como ele comia ‘aquelas porcarias’. O Púskas explicou para ele que era uma delícia essas frutas brasileiras e o fez experimentar. Mostrou que o abacate maduro batido com leite condensado era delicioso e a banana com pintas era porque estava bem madura. A partir daí esse húngaro, Andris, passou a comer banana nanica e abacate todos os dias e de todas as maneiras.
            Um dia esteve almoçando na pensão, um chileno, que eu não conheci, mas ensinou o Andris a comer abacate também na salada. E ele sempre pedia para a dona da pensão que acrescentasse na salada dele, pelo menos, dois pedaços de abacate!”
            Por isso eu digo sempre para as crianças: “tem que experimentar de tudo, mas da forma certa!”

sábado, 17 de junho de 2017

Vestibular para Economia

Nicanor de Freitas Filho

            Já contei aqui, minha vinda para São Paulo, em 1964, quando fiz cursinho para Agronomia e o Professor Ernesto Rosa, me “avaliou” e sugeriu que eu estudasse Economia, porque era muito improvável que eu passasse no vestibular para Agronomia, por causa, principalmente, da dificuldade que eu tinha em Biologia e Química. Veja no link: http://freitasnet.blogspot.com.br/2015/09/lembrancas.html  .
            Aceitando a sugestão e a ajuda dele, passei a trabalhar meio período e estudar mais para fazer o vestibular para Economia. Isto em setembro de 1964 e os vestibulares, naquela época, eram todos no mês de dezembro. Tive muito pouco tempo para estudar as matérias concernentes à Economia. Mas com a ajuda dele e de outros professores, que sabiam da minha dificuldade financeira e a falta de condições, me davam força e me ajudavam no que podiam. Eu me esforcei ao máximo e não deixava de estudar sempre e com muito afinco. Tinha também o apoio da Aurora e do Zé Pedro, para a casa dos quais eu me mudei, pois não estava dando conta de pagar a pensão e o cursinho. Antes, todo mês eu ia até a casa dele e pedia cinco contos emprestados. No terceiro mês ele me chamou e perguntou se não era melhor eu ir morar na casa dele, pois estavam sem empregada e o quarto de empregada era muito bom, grande e tinha até condições de estudar lá, pois tinha a mesa de passar roupa. A casa dele ficava na Rua Paim, quase esquina da Rua Frei Caneca, na Bela Vista. Eu trabalhava no Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, na Rua Boa Vista, perto do Largo São Bento e o Cursinho ficava na Rua Dr. Albuquerque Lins, perto da Alameda Barros, em Higienópolis. Saía do Banco às 18:00 h pegava o ônibus “Circular Avenidas” descia na Avenida Angélica, e o dia que tinha dinheiro, parava na padaria e comia um pão com mortadela, o dia que não tinha, tomava um café, na maioria das vezes, “filado” de algum colega, principalmente do José Augusto. As aulas começavam às 19:30 h e iam até às 23:30 h. Terminadas as aulas, eu saía a pé, e ia até à Rua Paim, na Bela Vista. São cerca de 3 km e eu gastava mais de meia hora. Subia a Dr. Albuquerque Lins até à Av. Higienópolis, andava toda a avenida até o Makenzie, pegava a Rua Maria Antonia, inteirinha, a Caio Prado até à Rua Frei Caneca, para chegar na Rua Paim. (momento marcante: nunca me aconteceu nada) Procurava vir pelo meio da rua, assobiando para não ter tanto medo e chegava em casa, geralmente,por volta da meia noite e meia. Tomava meu banho e estudava até não aguentar mais. Dormia, e, na verdade, poderia levantar-me mais tarde, pois entrava no Banco ao meio dia. Mas quando era por volta das 7:30 h escutava uma bolada na porta do meu quarto. Era o Eliseu, então com quatro ou cinco anos, me chamando para jogar bola com ele. Desta forma, acostumei-me a dormir cerca de quatro horas por noite e estava pronto para o novo dia. Às vezes eu precisava estudar em algum livro caro, que eu não o possuía. Então pedia emprestado para o José Augusto, colega que conheci no cursinho, que morava no Pacaembu e o pai dele tinha uma rede de lojas de roupas masculinas. (Depois conto sobre ele com detalhes). Mas referi-me a ele, porque algumas vezes ele ia trabalhar com o pai, nas Casas Fausto, e eu ia para a casa dele estudar na biblioteca dele. A Mãe dele, que me chamava de “Mineirinho”, me deixava quieto lá na biblioteca estudando e algumas vezes até almoçava com ela, para depois ir direto para o Banco. Quero mostrar que podendo eu estudava sem parar. Tinha que passar ou passar no vestibular. Eu já tinha perdido três anos de estudos. Fiquei um ano sem estudar em Araxá, quando saí do Grupo Escolar. Tomei uma bamba em Muzambinho, e por causa da greve de Pinhal, em 1963, também perdi um ano, que era este que estava, então, fazendo o cursinho.
            Chegado dezembro, fui relativamente bem avaliado no cursinho, mas me informaram que na USP seria difícil passar. Que tentasse outras Faculdades boas, como PUC, São Luis, Makenzie e FAAP. Fui, assim mesmo, fazer o vestibular da USP, mesmo porque foi o primeiro a ser marcado. Fiquei muito animado quando vi a nota de Matemática, que era eliminatória, 7,5. Era uma boa nota, sem dúvida. Fui razoavelmente bem em Português e Inglês, mas em História tirei um 1,75. Foi uma lástima!
            A segunda Faculdade a marcar data foi a Faculdade São Luis, na Avenida Paulista. Quem era eu para passar lá? Ia ser muito difícil também. Mas fui fazer. Fui muito bem em Matemática e Português. Inglês nem me lembro, e Geografia e História, provas feitas juntas, de múltiplas respostas, diferente das de Matemática e Português, não sei como eu passei! Devia saber alguma coisa e devo ter “chutado certo” outras respostas e fui aprovado em (momento marcante) 30º lugar, num total de 100 vagas. Era muito bom para mim! O resultado saiu na véspera do Natal, então a Aurora disse que íamos comemorar na Ceia do Natal. O Zé Pedro tinha ganho uma caixa de vinho francês e abriu durante a ceia. Lembro-me que a família de uma prima da Aurora foi passar o Natal com ela. Era a Cida, que junto comigo “enchemos a cara”. Fiquei tão bêbado que não conseguia subir a escada para ir ao banheiro... Valeu!!
            No terceiro ou quarto dia de aula, estávamos conversando no corredor, uns cinco ou seis colegas, tentando nos apresentarmos, pois quase ninguém sabia o que os outros faziam. Eu ouvi que um trabalhava na Cia. Telefônica, outro na Abril, outro na Nestlê e eu trabalhava há poucos dias numa empresa pequena, do ramo financeiro chamada SPI – Sociedade Paulista de Investimento. Fiquei um pouco amargurado com minha posição, mas imaginei que estava começando e por certo iria crescer na empresa. Todos comentando o que faziam e eu não tinha muito para contar, então quando me olharam, como que perguntando sobre meu trabalho, eu sem saber o que falar, disse, com certo orgulho: “Eu fiquei muito satisfeito de entrar aqui na São Luis, pois passei em 30º lugar!”  Do meu lado estava o colega Roberto Ozéas, que falou: “Essa classificação não significa nada, eu passei em 1º lugar... o que que eu ganhei?” Eu quis dar os parabéns mas os outros começaram a rir... 


terça-feira, 13 de junho de 2017

Ah! Se fosse hoje!

Nicanor de Freitas Filho

            Em 12/06/2007, portanto há dez anos, como já contei aqui, sofri um infarto do miocárdio, seguido de uma parada cardiorrespiratória que resultou na colocação de quatro stents, em três angioplastias e, realmente, foi o que me fez parar de trabalhar no mercado gráfico-editorial, em que eu estava havia cerca de 30 anos. Em decorrência desse fato, recebi muitas visitas de amigos, em minha casa, que na época era no Edifício Isabel de Castela na Rua Haddock Lobo.
            Uma dessas visitas foi do casal amigo, Glória e Pedro, que moram no Rio de Janeiro. Estando em São Paulo, foram em casa me visitar. Ficamos conversando até por volta das 22:30 h e eles iam dormir na casa de uns primos que moram em Perdizes. Minha mulher disse que íamos levá-los, pois já era um pouco tarde. Eu não estava dirigindo, então ela que teria que ir dirigindo. Como todo casal de paulistanos, já que era minha mulher que estava dirigindo, foram no banco da frente ela e Glória. O Pedro e eu sentamos no banco de traseiro.
            Como moramos lá por 33 anos e nossa vaga de garagem nunca mudou, ficava bem atrás do elevador, de forma que saíamos e dirigíamos ao carro sem mesmo ver o resto da garagem, e a gente fazia a manobra de ré, para pegar a saída do portão, quase que sem olhar. Só tinha que ter cuidado com um pilar que fica à esquerda de quem está dirigindo de ré. Entramos no carro que era beije, e ainda conversando ela manobrou normalmente até que viu o pilar passar e nesse momento escutamos um barulho de raspar. Ela imediatamente freou o carro e não sabemos como, estava parado, fora das vagas, à esquerda dela, um carro preto, acredito que era uma Tucson, quase no vão da saída. Não tinha a mínima lógica aquele carro parado ali. Pensamos que era um visitante ou alguém que foi buscar algum morador, pois não conhecíamos o senhor parado ao lado do carro preto.
            Minha mulher desceu, desculpou-se, mas perguntou porque ele estava parado ali, no caminho de saída. Ele, de terno e gravata, foi de uma grossura com ela, dizendo que não lhe devia satisfação, era morador do prédio e estava aguardando a mulher dele que havia subido por ter esquecido algo. Mas disse isto de maneira grosseira e agressiva! Então imediatamente descemos, meu amigo e eu.  Já me coloquei à frente dele e a primeira coisa que fiz, foi olhar o tamanho do estrago. Não tinha acontecido nada, pois ela estava manobrando muito devagar. Apenas ficou uma marquinha beije, no pára-choque preto dele. Ele, de maneira muito agressiva, perguntou se morávamos no prédio, e eu respondi que só há 33 anos! E também já perguntei de qual unidade ele era morador. Ele disse novamente, que não devia satisfação. Então agachei e passei a mão sobre o pára-choque dele e saiu toda a marca na minha mão. Não ficou nada. Mas mesmo assim ele disse que ia fazer uma “ocorrência”! Oi? Ocorrência? Sim! “Vou chamar o zelador e vou fazer a ocorrência.” Eu fui bem claro com ele. “O Zelador esta hora está dormindo, porque levanta muito cedo. Dei o número do meu  apartamento e disse que  poderíamos conversar na manhã seguinte.” “Não! Vou chamá-lo.” Foi até ao interfone e mandou chamar o pobre Zelador, que além de tudo é muito meu amigo, pois eu fui o segundo morador do prédio, tinha sido Síndico duas vezes, sempre fui do Conselho Deliberativo, inclusive eu, junto com Dr. Ari, quem escrevemos o Regimento Interno definitivo do Prédio.
            O Zelador chegou, nitidamente com sono, de forma que dava para saber que ele foi acordado – nessas alturas já passava das 23:00 h – e o doutor de gravata já foi falando que... “esta senhora bateu no meu carro. Manobrou de forma perigosa e distraída. Queria fazer uma ocorrência para tomar as devidas providências.” O Zelador olhou no carro dele, onde já não tinha mais nada e perguntou onde bateu. Ele apontou o pára-choque  e o Zelador agachando e chegando bem perto, riu e disse que aquilo não era “batida”. Dirigiu-se ao container de lixo, pegou um pano, foi até à torneira molhou e passou com força sobre a grande “batida”.  Aí desapareceu de tudo mesmo!
            O doutor de gravata porém disse para o Zelador anotar no livro de ocorrências, porque ele iria tomar as providências. Repetiu isso umas três ou quatro vezes, nitidamente querendo nos intimidar. Eu então, disse, que se ele quisesse conversar no outro dia, estaria em casa o dia todo. Ele, sempre com muita grosseria e arrogância, disse que tomaria as providências. “OK! O senhor, por gentileza,  pode afastar seu carro para sairmos, pois temos que levar nossas visitas?” Ele com toda a arrogância e má vontade, afastou o carro. Entramos e nos fomos. Nem me preocupei, pois realmente não tinha acontecido nada.
            No dia seguinte, procurei o Zelador para saber como ele iria “registrar a ocorrência” e ele me disse para não me preocupar, pois não ficou nenhuma marca e que ela já tinha conversado com o doutor e lhe explicou que não tinha livro de ocorrência. Disse para eu só ficar de olho, porque ele ainda repetiu que ia tomar providências. Talvez vá até alguma delegacia, fazer um BO, pois além de tudo ele é advogado.
            Nessa época morava lá no nosso prédio o Fábio Luis, o Lulinha, e tinha uma amiga dele, que segundo me informaram, era a filha daquele camarada que emprestava a casa para o Lula morar, antes dele “comprar” o apartamento em São Bernardo. Ela que tinha alugado lá primeiro e depois arranjou uma unidade para o Lulinha alugar. Aliás, diga-se, várias vezes encontrei com o Lulinha no elevador, sempre educado e cordial. Cumprimentava, abria a porta para as senhoras e os mais velhos. Nada a ver com a imagem que temos do pai.
            Passados dez anos, que mudei-me de lá, hoje moro bem perto e sempre vou lá, e os funcionários ainda são os mesmos, inclusive o Zelador. São meus amigos, falamos de futebol, pois são três corinthianos e um sãopaulino. Não é que o Zelador me disse, recentemente, que sempre que vê os depoimentos da Lava Jato na televisão lembra-se de mim, da falta de educação daquele doutor que certa vez encostamos no pára-choque do carro dele. Eu nunca tinha me dado conta, mesmo porque não prestei a mínima atenção no mal educado, mas trata-se de (momento marcante) Cristiano Zanin, advogado do Lula. Pode? Ah! Se fosse hoje!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Alistamento Militar

Alistamento em Ponta Grossa – Apresentação em Campinas – Juramento à Bandeira em Araxá – Emissão do Certificado em Três Corações...
Nicanor de Freitas Filho

            Quando completei 17 anos, estava morando em Ponta Grossa no Paraná na Escola Agrotécnica Dr. Augusto Ribas. (No causo 100 eu já contei sobre a formação da Fanfarra de lá: https://freitasnet.blogspot.com.br/2017/04/autoridade-e-comando.html ) Como já expliquei, estudei na Escola Agrotécnica de Muzambinho por 5 anos, onde fiz os cursos de Iniciação Agrícola e Mestre Agrícola. Fiquei 5 anos porque levei uma bomba em Francês, no segundo ano. Por problemas políticos, eleição de Juscelino Kubitschek, para Presidente da República, havia sido tirado o Curso Técnico de Muzambinho. Os alunos mais velhos que eu, turma 1953, foram todos, ou a maioria, transferidos para Barbacena, creio que em 1958 e foi lamentável! O terceiro Diretor da minha época, Dr. Paulo de Azevedo Beirutti, dizia que ia conseguir trazer de volta o Curso Técnico para Escola. Eu acreditava nele e já no final do segundo semestre, quando vimos que não teríamos o Curso Técnico, já era tarde para procurar uma nova escola e quando o fiz já não consegui vagas onde queria. Então fui para Ponta Grossa, no Paraná, onde fiquei um ano. Foi muito bom como experiência de vida.
            Com 17 anos os jovens têm que fazer o Alistamento Militar. Lá em Ponta Grossa, como tem um Quartel do Exército – aliás, de onde foram convocados os militares, para irem para Curitiba quando do depoimento do Sr. Lula ao Juiz Dr. Sérgio Moro e também onde consegui os instrumentos para nossa Fanfarra – é lá que se faz o Alistamento Militar. A Unidade do Exército é bem perto da Escola Agrotécnica e lá fui eu com todos os documentos, fotos 3 x 4, tudo como era exigido. Quando cheguei ao Setor de Alistamento, tinha um balcão com dois guichês e eu fui atendido por um Tenente. Vem aquela série de perguntas e quando chegou na cor dos olhos eu respondi “verdes”. Ele levantou os olhos e disse: “Não. Seus olhos são azuis” Eu disse que todos na minha família diziam que puxei meu pai e saí com os olhos verdes. Ele olhou de novo e falou “azuis esverdeados”. Eu sorri e ele então chamou uma secretária, que estava lá datilografando e lhe perguntou qual a cor dos meus olhos. Ela me olhou e disse que pareciam verdes mas também azuis e disse: “verdes azulados”. Eu comecei a rir, pois nunca ninguém havia questionado sobre a cor dos meus olhos. Eram verdes! Então o Tenente definiu e escreveu lá no formulário: “azuis esverdeados”.
            Isto posto, lembro que no ano seguinte, consegui transferência para Escola Agrotécnica de Pinhal, onde me formei em Técnico Agrícola em 1963. Nesse ano, tinha como residência a Escola de Pinhal e recebi a “intimação” para me apresentar para seleção de recrutamento para incorporação ao Exército. Em Pinhal, como não tinha sede, deveria me apresentar em Campinas e quando mostrei o endereço para o Oscar, colega que residia em Campinas, ele disse que era no Estádio da Ponte Preta. O Dr. Armando, médico da Escola, já havia me prevenido que eu não seria selecionado para incorporar, pois naquela época eu já usava óculos com 5,75 graus de miopia. Não enxergava quase nada, sem os óculos!
            No dia marcado fui para Campinas e me dirigi ao Estádio Moisés Lucarelli, da Ponte Preta. Lá chegando deveria ter algumas centenas de jovens para a tal seleção.  Eles foram chamando cerca de 50 jovens de cada vez e deram preferência para quem morava fora de Campinas. Assim fui logo chamado, na quarta ou quinta turma, depois que cheguei.
            Lá dentro, éramos dirigidos ao vestiário e tinha lá um Sargento comandando, dando as ordens. Separava de 20 em 20, e dizia: “Tirem toda a roupa, pendurem no cabide, guarde bem o número do cabide para não arranjar confusão.” Um mais esperto que nós já foi saindo para a sala de exame, quando o Sargento meteu a mão no peito dele e disse: “Eu disse para tirar toda a roupa”. Mas eu tirei ele respondeu. E o Sargento:”É pelado como você nasceu! Você nasceu de cueca?” O camarada muito sem graça voltou para tirar a cueca.
            Como na Escola a gente vivia pelado nos dormitórios, não tínhamos nenhum preconceito de ficar totalmente pelado perto uns dos outros. Tirei tudo coloquei no cabide nº 17 e fui saindo. Eu era o quarto ou quinto ali na sala de exames. Veio o médico Capitão e disse: “Levantem as mãos; palma da mão para baixo; fiquem só no pé direito; fiquem só no pé esquerdo; levantem o joelho; fiquem de costas; levantem um dos pés...Espere ali na esquerda” Ai um por um: “Abra a boca, põe a língua pra fora”.  Atrás da mesa dele, tinha lá umas linhas com letras. Ele pegava uma vareta e apontava uma letra e perguntava que letra era. Eu, sem óculos, não conseguia ler nada. Ele foi subindo para as letras maiores. E chegou uma hora ele perguntou: “O senhor sabe ler?” Eu disse que sim. “O senhor enxerga bem?” Eu disse que de óculos sim. Ele me olhou com olhar de bravo e disse: “Então vai pegar os óculos!” eu respondi (momento marcante): “Mas eu não nasci de óculos”. Aí, mais bravo ainda, ele me disse que não era brincadeira e que fosse pegar os óculos e voltar para o fim da fila. Eu voltei para o vestiário e o Sargento me perguntou se já tinha feito todos os exames. Eu expliquei que apenas pegar os óculos. Ele disse: “Porque você tirou os óculos?” E eu respondi: “Porque não nasci de óculos!” Ele ia me dar a bronca, mas começou a rir e disse: “É eu falei que era para ir como nasceu.Você tem razão. Vou lá explicar para o Capitão”.
            Voltamos juntos para a sala e ele disse para o Dr. Capitão o que tinha acontecido. Então ele me pediu para ver os meus óculos. Olhou, virou para o claro da janela e perguntou: “Quantos graus o senhor usa?” Respondi: “5,75 no direito e 5,5 no esquerdo”. “Pode ir, com essa visão você será dispensado”. Que bom!!
            Em 1964, quando foi emitido meu Certificado de Reservista de 3ª Categoria, em Três Corações, MG – porque aí meu endereço já era de Araxá, onde fiz o Juramento à Bandeira – não sei por que motivo, tiraram da cor dos meus olhos os “azuis” da expressão “azuis esverdeados”. No Certificado aparece apenas “esverdeados”.